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Como Narcos aborda a guerra às drogas

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Apenas mais uma decisão acertada da Netflix, a segunda temporada de Narcos conta os últimos anos de Pablo Escobar, o crescimento do Cartel de Cali, rival do Cartel de Mendelin, a ação conjunta do governo colombiano com o DEA para capturar e matar Escobar, a ação secreta da CIA e, mais importante, como a Guerra às Drogas mudou a sociedade da época.

 

Narcos, uma narrativa intrigante

A série acompanha a vida dos agentes Javier Peña e Steve Murphy na Colômbia para tentar capturar Pablo Escobar e barrar o tráfico de drogas no país. Ambos são agentes da DEA (Drug Enforcement Administration, agência americana de combate às drogas) e representam claramente os interesses dos Estados Unidos na América Latina.

 

Dirigida por José Padilha, famoso por Tropa de Elite e o remake de Robocop, a série se assemelha muito ao modelo de Tropa de Elite. O protagonista conta sua história em narração off-screen (fora da tela) enquanto os acontecimentos desenrolam. Tudo recheado de conspirações políticas, suspense policial e uma fina análise das motivações de seus personagens. Mais uma vez vemos a história de violência social pelo ponto de vista do policial, nesse caso Steve Murphy.

 

Mais uma história de mocinhos e bandidos?

Muito longe disso. Um grande ponto da série é mostrar os dois lados da história no melhor e principalmente no pior do que tem a oferecer. Com uma moralidade dúbia de ambos os lados onde a maior intenção é sobreviver.

 

Logo no primeiro episódio vemos uma ação do grupo em uma boate da Colômbia onde os policiais invadem abrindo fogo e matando todos. Com o decorrer do episódio aprendemos que o evento era uma retaliação contra os atos feito pelos traficantes antes, que sob nova ótica, vemos a cena não apenas como uma mero ato de revanchismo, mas uma intricada relação de ação e reação que termina numa grande escalada de violência.

 

Um ponto desse tipo de narrativa é ressaltar a violência intrínseca ao desenrolar da guerra às drogas, uma política pública de punição ao consumo de entorpecentes que iniciou no começo do século XX e contou com ações radicais e autoritárias na décadas de 60 e 80. Para mostrar que não tenho o nome “Historiador” no site à toa, vamos à História.

 

A cultura humana e o consumo de entorpecentes

O consumo de substâncias que alteram a consciência é registrado na história da cultura humana desde sua fundação. O Discovery Channel inclusive fez um documentário interligando o desenvolvimento da cultura com a produção de cerveja (que eu analisei em um texto que pode ser acessado nesse link). A maconha era amplamente usada no hinduísmo como terapia e medicina e na região andina é historicamente comum mascar e fazer chá com folhas de coca para fins também terapêuticos e medicinais.

 

Durante a maior parte da história da humanidade, o uso de drogas era razoavelmente aceito socialmente. Não menos reprovável que o consumo de bebidas alcoólicas. Durante a belle époque (período entre a guerra franco prussiana e o início da primeira guerra mundial, 1871-1914), pode se dizer talvez que houve uma glamorização do uso de alteradores de consciência. Não era incomum o uso de lança perfumes nos carnavais brasileiros, e tônicos e outras bebidas relaxantes com a adição de folhas de coca, inclusive a coca cola eram comum no comércio e a cocaína era vendida e receitada para diversos fins medicinais, defendidos inclusive por Freud.

 

Foi somente no século XX que a proibição toma forma. Em 1919 a Europa iria proibir as drogas e os EUA iria banir o álcool em 1920, influenciando o resto do mundo. Porém, após uma escalada da violência urbana nos EUA por causa da proibição, as bebidas seriam liberadas anos depois. Porém mantendo o controle contra as drogas.

 

Guerra às Drogas

Ainda que as drogas tivessem se mantido em sua maioria ilegais, não havia uma repressão ao usuário de forma violenta. A primeira ideia de guerra às drogas veio no governo republicano de Nixon, perdeu fôlego no governo democrata de Jimmy Carter, mas voltou com toda a força no governo republicano de Ronald Reagan, de 1981 a 1989. É a partir desse momento que é retratado a narrativa da série.

 

Como previsto pelo economista americano Milton Friedman, da mesma forma que a proibição do álcool havia fortalecido a máfia e sindicatos do crime nos anos 20 em Chicago, a proibição das drogas fortaleceu grandes cartéis de traficantes que se fortaleceram e ficaram mais violentos na medida em que a repressão do governo contra as drogas aumentasse. Foi nos anos 80 a 90 que a violência em grandes metrópoles como Miami e Nova York (conhecidos circuitos de venda de cocaína) chegaram a níveis alarmantes.

 

Como é retratado na série

Há uma representação bem simbólica em relação aos primeiros episódios da primeira temporada com a segunda. No começo vemos um Escobar como um empresário e homem público, preocupado em trazer algum conforto em sua comunidade por meio de ações sociais. Se transformar rapidamente num terrorista que não vê problemas em espalhar bombas para negociar com o governo.

 

Vemos também que um dos produtores de cocaína que chegam a Colômbia inicialmente, vinha foragido do governo repressivo chileno do ditador Augusto Pinochet (que mais tarde iria influenciar economicamente o governo Reagan nos EUA e Margaret Thatcher, no Reino Unido). Apesar de não ser confirmado se o acontecimento é real, passa a clara mensagem de que o proibicionismo não é efetivo.

 

Na história, o procurador-geral da república durante os acontecimentos comenta mais de uma vez sobre acordos com Pablo Escobar para fazer valer o sistema judiciário, e não a execução, ventilando inclusive a possibilidade de legalização das drogas como possibilidade de pacificação. Infelizmente esse personagem não parece condizer com a realidade, tendo o filho de Escobar dizendo que o procurador e seu gabinete era comandado pelo cartel de Cali, rival do “Pátron”.

 

A fortuna de Pablo

A série retrata o rápido enriquecimento de Pablo Escobar no mercado de cocaína. Com origem humilde, logo Pablo tem tanto dinheiro que não consegue sequer estocá-lo de forma eficiente ou sequer lavá-lo. A fortuna dele é real, foi estimada por circular 22 bilhões de dólares por ano e ficou em sétimo lugar na lista de bilionários da Forbes, lista que permaneceu por sete anos.

A cena onde Pablo queima um montante de notas para aquecer sua filha também é real e contada pelo filho, ainda vivo. A filha estava com primeiros sintomas de hipotermia e a quantia queimada foram 2 milhões de dólares. Imaginar essa quantia de dinheiro para um país de economia pobre como a Colômbia, não fica difícil de imaginar como o tráfico de drogas pode ser um negócio sedutor, mesmo com a violência nele incluída.

 

Conclusão

Assim como nos dois filmes da série Tropa de Elite a mensagem é clara. A proibição das drogas não funciona. As negociações apenas iriam gerar um grande sistema de corrupção que envolveria os funcionários do governo e os traficantes mais violentos, que sobreviveram a repressão estatal e conseguiram o monopólio de venda de um produto com uma demanda tão alta.

 

Deveríamos então aprender as lições, fictícias ou não, sobre os efeitos que a guerra as drogas causaram na sociedade e seguir o conselho de Milton Friedman, liberando as drogas e as tratando como problema de saúde, ao invés de polícia? Alguns estados americanos como Colorado já adotam políticas menos restritivas e os resultados são animadores. Se esse será o futuro de como lidamos com as drogas, só o tempo poderá dizer.

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