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A estética do absurdo no Horror Japonês

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Parte da ideia do horror é brincar com o imaginário, com o desconhecido. E nesse quesito os orientais tem uma larga vantagem na estética do horror do que os ocidentais. Pelas diferenças culturais e religiosas, o horror japonês tem uma visão única sobre o macabro, além de uma tradição de histórias de fantasmas e sobrenatural que data desde o período Edo.
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Essas histórias eram conhecidas como Kaidan e se desenvolveram num jogo folclórico chamado Hyakumonogatari Kaidankai, que consistia em juntar um grupo de pessoas em 3 salas, acender 100 velas em uma das salas com um pequeno espelho nela e, a cada conto de terror contado, a pessoa deveria ir até a sala, apagar uma das velas, se olhar no espelho e voltar para a sala para continuar contando as histórias. As histórias tinham uma inspiração moral budista e geralmente falavam de espíritos vingativos e karma.

Dentro dessa estética de história de fantasmas um personagem ficou bastante comum, o onryotrueespírito vingativo chamado Onryō sendo basicamente o estereótipo de fantasmas japoneses, uma mulher de branco com cabelos negros que lhe cobrem o rosto. Onryō é um espírito vingativo que sofreu uma morte terrível e fica encarregada de assombrar ou um lugar em específico, ou uma pessoa que está ligada com sua morte.

As vestes brancas usadas pelo fantasma representam as cores de luto no Japão, com o qual os mortos são enterrados. O rosto ou corpo desfigurado está relacionado com a forma que o espírito conheceu a morte. A história mais tradicional envolvendo um  Onryō  foi  a peça de teatro chamada Yotsuya Kaidan. Conta a história de um ronin (um samurai sem mestre, que é motivo de desonra no Japão Feudal) chamado Lemon e Oiwa. O pai de OiwaOiwa era contrário ao casamento dos dois pela falta de honra do ronin e foi assassinado secretamente por Lemon.

Após o casamento dos dois, Lemon mostra-se um péssimo marido e tenta envenenar Oiwa, para poder ficar com sua amante. Porém o veneno apenas desfigura a mulher sem a matar,  Oiwa depois descobre da traição de Lemon e se suicida. O espírito deformado de Oiwa começa então a assombrar Lemon e aparecer em todos os lugares que ia.

A ideia central de traição e vingança de um espírito inquieto ficou famosa no ocidente graças aos filmes Ju-on (2000) e Ringu (1998) que foram adaptados para filmes americanos O Grito e O Chamado. Nos jogos há diversas franquias que exploraram os temas e a estética dos kaidan, uma delas foi a franquia Corpse Party de 1996.

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Após uma simpatia da amizade que dá errado, 8 crianças e uma professora são transportados para uma escola numa dimensão paralela povoada por esses espíritos vingativos. No jogo, cada um deles está vivendo a sua morte por toda a eternidade e, apesar de existir alguns espíritos que estão em paz e por tanto benéficos, a grande maioria está lá para causar mal e tem de ser exorcizado. Uma das crianças mortas teve a metade superior da cabeça arrancada e esse aspecto se mantém no espírito.

Outra série de jogos que aborda com qualidade essa temática é Fatal Frame, onde o protagonista tem em mãos uma câmera mágica capaz de exorcizar os espíritos ruins, enquanto pode também registrar a aparição de espíritos bons que estão lá para ajudar o jogador. O enredo principal de Fatal Frame também conta com um ritual que deu errado, dessa vez um ritual Shintō (da religião xintoísta). No ritual, uma dama deve ser sacrificada para que os espíritos ruins sejam selados no mundo exterior e não possam chegar ao mundo dos vivos.

2354871804_ac1c3eebbeFora um pouco dessa visão budista sobre a morte e justiça divina, há um olhar mais exagerado, mais absurdo em algumas criações nipônicas que se destacam exatamente por esse toque grotesco. Junji Ito, um dos grandes nomes do mangá de horror, nos trás Uzumaki, um mangá episódico de 3 volumes e 19 edições sobre uma cidade que fica obcecada por espirais, um enredo simples que logo se transforma numa tormenta sem fim de imagens pitorescas.

Na história acompanhamos a vida da jovem aluna Kirie e seu namorado Suichi, o primeiro a perceber que a cidade estava mudando. O pai de Suichi é o primeiro a ficar obcecado com a forma geométrica e começa a colecionar tudo que se assemelha a uma espiral. Em seu auge da obsessão, o pai de Suichi se contorce em uma cesta, proporcionando uma visão horrível para sua mulher e filho ao encontra-lo.

A mãe de Suichi logo cria uma fobia com a forma, chegando ao ponto de cortar os dedos por que as impressões digitais tinham a forma de espirais. Cada edição adiciona um elemento novo a situação já caótica da cidade e todas as mortes dos personagens são bem gráficas, dando uma sensação única de desconforto. O contraponto de desenhos simples para retratar o cotidiano dos personagens, para um desenho muito mais complexo das formas grotescas causa um imenso desconforto cheganto até a passar a obsessão com espiral para a nossa própria vida. Outros trabalhos do autor envolvem Tomie e Gyo. Ito também trabalhava no projeto de Silent Hills antes de ser cancelado.

Um anime que também tem suas doses moderadas de gore asiático é Another. No anime, há maxresdefaultuma lenda urbana que conta que a classe 3-3 da escola sofre uma maldição de um espírito que frequenta as aulas como se estivesse vivo, se os alunos não ignorarem o espírito, um por um todos irão morrer de formas violentas. Cabe então ao protagonista uma busca contra o tempo para achar quem está se passando por vivo na escola.

Há também um exemplo de uma webcomic muito boa com essa temática, ela é um pouco antiga mas sua história ainda se mantém muito boa, caso queiram ler, é só clicar no link abaixo:
http://comic.naver.com/webtoon/detail.nhn;jsessionid=DCE10315281535021BD76281A918ECAD?titleId=350217&no=31

Sejam em jogos digitais, animes, mangás ou filmes. O terror japonês tem uma estética única que nos prende e aterroriza por muito tempo depois de que contemplamos a obra original, deixando as imagens de horror e mistério presos na nossa imaginação e admirados por contemplar tal expressão única do horror.

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