Início Análises e Teorias Sobre ética jornalística nas mídias digitais

Sobre ética jornalística nas mídias digitais

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Com a decadência da mídia impressa e televisiva, demasiadamente centralizada e conservadora para uma era da informação digital dinâmica e ágil, viu-se nascer uma nova mídia jornalística tipicamente digital.

 

Buzzfeed, Catraca Livre, IGN e diversos outros meios digitais ganharam lentamente força e confiança de leitores e agora representam uma mega força na área de jornalismo, possibilitando um passado desonesto e antiético dos jornais centralizados e elitizados para trás.

Ou será que não? Infelizmente os problemas que achávamos ultrapassados por essa nova modalidade de mídia jornalística se vêem, senão os mesmo, apenas ruins e de diferentes formas. Algumas novas problemáticas vem aparecendo e cabe a qualquer pessoa lúcida reclamar delas e esperar mudanças, vamos a algumas.

 

Falta de sensibilidade e sensacionalismo

O caso da exploração midiática do Catraca Livre sobre a tragédia do vôo do Chapecoense (que nesse momento, já foi revertida e agora pedem perdão pelo vacilo) foi a gota d’água para muitas pessoas, mas infelizmente é algo usado a exaustão diversas vezes não só por eles, mas também por grandes portais de jornalismo de mídias digitais, sempre que há algum desastre que chama a atenção da população.

 

O problema circula em meio a uma única questão central: A mídia social é movida a clicks e engajamento com as matérias publicadas. São esses dados de alcance e cliques que aumentam a popularidade do site, traz mais visibilidade nas pesquisas e, acima de tudo, são esses números que são apresentados aos anunciantes, que arcam com a renda bruta desse tipo de site.

Não quero fazer um julgamento de valor sobre a origem de renda de cada um desses portais. Mas não dá pra negar que, junto a isso, vários problemas são acarretados, irei exemplificar aos poucos.

 

Clickbait

Os 4 motivos que vão fazer você odiar as mídias digitais (a #3 é muito boa).

Estou fazendo como piada, mas você já deve ter visto essa chamada em contextos diferentes nos mais diversos sites e, com um mínimo de discernimento possível, deve odiar elas do fundo do coração. Isso quando o título sequer fala alguma coisa sobre a matéria, e não é apenas uma generalidade vazia sobre seu conteúdo.

 

A Netflix, como todos os meses, anunciou que irá adicionar títulos novos agora em dezembro (e com certeza irá retirar outros mais) apenas um detalhe na rotatividade de títulos que mantém o serviço de stream, qual foi o anúncio da IGN sobre o caso?

 

“O CATÁLOGO DO NETFLIX ESSE MÊS ESTÁ INCRÍVEL”

Spoiler alert, não está.

 

Aliás, faz já alguns meses que o Netflix não adiciona nenhum título realmente de peso, talvez pela situação financeira da empresa não esteja nos seus melhores dias. Obviamente o gosto é algo totalmente subjetivo, mas sejamos francos, você realmente vai perder suas calças porque agora poderá assistir Californication e uma nova temporada de Fuller House no Netflix?

 

Anúncios pagos que parecem notícia

Publicidade e jornalismo, apesar de serem ambos matérias dentro do campo da comunicação e terem algumas semelhanças em execução, são ofícios distintos com finalidades praticamente opostas, vale lembrar a célebre frase que geralmente é atribuída ao George Orwell (autor de Revolução dos Bichos e 1984, que era também jornalista) mas que é na verdade de William Randolph Hearst (pessoa que foi inspiração para o personagem Charles Foster Kane, de Cidadão Kane):

 

“Notícia é o que alguém, em algum lugar, não quer publicada: todo o resto é propaganda”

 

É com essa frase em mente eu pergunto, porque tantas chamadas de notícias são na verdade, marketing negociado? Hoje mesmo acessei o site Catraca Livre e vi a matéria “Saiba como fazer batata frita na panela de pressão” que nada mais é do que publicidade para o canal “Cozinha de Solteiro”. Sem menores explicação, sem assinatura do redator, apenas propaganda descarada.

 

Se vocês acessarem o site, verão no fim do post uma sessão de “recomendados para você”, onde geralmente é colocado outros artigos do site que sejam relacionados com o tema que você está lendo. Nesse caso é uma sessão de anúncios pagos que são organizados pela empresa de marketing chamada Outbrain. O aviso disso? Um pequeno link no canto escrito “recomendado pela outbrain” que leva ao site da empresa, onde ele explica a finalidade do anúncio.

Não sou contra as pessoas usarem o site para venderem anúncios. É o melhor jeito de deixar um conteúdo acessível a todos usuários e ainda sim manter o site no ar, pagando toda a equipe do site e ainda retirando algum rendimento lucrativo. Tudo de forma justa, contanto que sejam honestos o suficiente para anunciarem a seus leitores o que é jornalismo e o que é marketing dentro do site (se é que ainda existe essa diferença nesses sites).

 

Checagem de fontes e informação

Esse é um problema mais grave nos sites de compartilhamento político (e não importa a questão ideológica nesse caso, tanto os sites de esquerda como direita compartilham boatos e mentiras sem checagem de fontes) mas isso também, infelizmente, é muito comum em sites de cultura pop.

 

O caso mais escandaloso foi o compartilhamento massivo da notícia de que tinham parado a pesquisa de produção de anticoncepcional masculino por que homens abandonado os testes por não suportarem os efeitos colaterais. que são semelhantes aos que as mulheres consomem atualmente.

 

Porém, esse não foi o caso do ocorrido, a própria publicação científica esclareceu que os efeitos eram muito mais danosos do que o esperado e que são comuns nos anticoncepcionais femininos e que ainda sim, existiam alguns pacientes dispostos a continuar os testes.

O Pirula já fez um vídeo em duas partes explicando os efeitos dos anticoncepcionais nas mulheres e quais eram os efeitos retratados nas experiências, então não vejo a necessidade de explicar além do que ele disse. Mesmo com a questão esclarecida, não vi uma grande movimentação para desmentir o caso

 

Conclusão

Estamos num processo natural de modificação de mídia jornalística. A grande mídia impressa e televisiva está aos poucos morrendo (e eu tenho um texto programado especialmente para abordar esse tema com carrinho) e o futuro se mostra propício para o crescimento e estabelecimento das mídias digitais como veículo de informação e jornalismo da contemporaneidade.

 

Mas, além de não trazermos os vícios da grande mídia que está agora morrendo, temos de nos atentar sempre para não cometermos erros novos, muito mais tentadores e igualmente desonestos. Fica aqui um sincero voto de confiança na capacidade de auto regulação das mídias digitais como veículo de informação.

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