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Como Thelma e Louise aborda a Cultura do Estupro

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Filme de 1991 sobre uma road trip de duas amigas onde, após assassinar uma pessoa, se transforma num grande filme de fuga policial. Entenda como que o conflito original do filme fala justamente da Cultura do Estupro, algo que tem se falado muito nas redes sociais mas que não apresenta muita clareza sobre o que significa o termo, e o que ele influencia na nossa sociedade.

 

Cultura do Estupro?

Um termo usado a exaustão sem a devida contextualização pode levar a palavra ao esvaziamento de sentido. Um pouco disso vem acontecendo com o termo Cultura do Estupro. A ideia é que a sociedade, da forma como é organizada atualmente, relativiza a vítima de uma violência sexual por um comportamento ou passado da vítima.

 

O caso mais claro ocorreu com a vítima de 16 anos que sofreu um estupro coletivo no Rio de Janeiro e teve vídeos gravados sobre o acontecimento. Quando a informação seria apenas de que ela fora violentada por 30 homens, a opinião pública estava favorável a menor e contra os estupradores. Quando o passado da moça foi exposto e uma certa familiaridade dela com alguns dos criminosos foi exposta, boa parte da população começou a culpar a vítima por ter seu corpo violado.

Essa é exatamente, em sua forma mais clara, um exemplo de como funciona a cultura do estupro.

 

Tá, mas e o filme?

Estrelado por Susan Sarandon e Geena Davis, dirigido por Ridley Scott e roteirizado por Callie Khouri (que inclusive ganhou Oscar de melhor roteiro) fala da aventura das duas amigas que tiram o final de semana para viajar numa grande quebra de rotina. Em sua primeira parada Thelma, que tem um casamento monótono e controlador, acaba bebendo bastante e aceitando flertes de um desconhecido, ainda que desaprovado por Louise, sem nenhuma intenção de relacionamento, apenas “pela diversão”.

 

Após uma saída de Louise, o então paquerador de Thelma a leva para o estacionamento do lado de fora e tenta beijá-la a força. Thelma se nega e o acompanhante reage cada vez com mais violência as negativas de Thelma, gerando uma tentativa de estupro que é impedida por Louise que surpreende o estuprador com uma arma.

 

Ainda na ofensiva o homem insulta Louise com uma agressão sexual verbal que, estressada por toda a situação, acaba atirando nele, levando a sua morte. Então as duas garotas fogem e a partir dai o filme se torna uma grande história de perseguição policial.

 

A cultura do estupro no contexto do filme

A primeira intenção de Louise é de deixar a amiga em algum lugar seguro e ela fugir para o México. Thelma diz que elas deveriam se entregar a polícia, explicando que a reação de Louise foi por ter impedido uma tentativa de estupro por parte do falecido. E então Louise explica tudo da forma mais direta.

Ela diz que, por todos no bar terem visto os dois dançando juntos, se divertindo e dando risada, nunca acreditariam que ele teria tentado estuprar ela, como se uma pequena intimidade pudesse dar “passe livre” ao corpo da moça.

 

É exatamente isso que representa a cultura do estupro, a ideia que estupro é apenas em alguma situação em especial, o clássico imaginário de alguém que pula das sombras numa vítima indefesa indo para casa, sem nunca conhecer a vítima, quando na verdade diversos casos de estupro acontecem com pessoas próximas a vítima.

 

Estupro nada mais é do que a violação do corpo sem o consentimento da vítima, e nada sobre o passado da vítima ou a situação do caso muda essa constante. Foi essa mentalidade que empurrou a vida das duas para os outros crimes que cometeram, num ato de rebelião a sociedade estabelecida.

 

A Liberdade Radical em Sartre no final do filme

Okay, spoilers sobre o final do filme daqui em diante.

 

Com o decorrer do filme as duas começam a experimentar uma espiral de crimes e atos de rebeldia que levam ao acúmulo de força policial atrás delas. Muito da postura que elas adotam trazem semelhança ao pensamento de Jean-Paul Sartre que influenciou diretamente a escritora feminista Simone de Beauvoir.

 

A ideia de Sartre é que o individuo sempre terá como escolha a sua liberdade radical, uma atitude de rebeldia que quebra o paradigma das escolhas (ou falta delas) que estão até então apresentadas. Diversas cenas trazem referência a essa postura, mas o ápice fica para a grandiosa cena final.

 

Thelma, encurralada pelo penhasco a sua frente e com os policiais as suas costas, aparentemente não tem uma escolha, ela deve se entregar, assumir a responsabilidade pelo assassinato do estuprador e ir para a cadeia, então Louise, a amiga que foi protegida por Thelma, mostra sua verdadeira escolha de liberdade radical, Louise diz apenas para… seguir em frente… não arriscar perder a liberdade de tudo que foi vivido pelas duas até o momento.
Com a permissão de sua amiga, Thelma abraça sua liberdade radical e joga seu carro do penhasco, pondo fim em sua vida e de sua amiga como último protesto por viver em um mundo que a oprime e a descredita unicamente pelo gênero em que nasceu.

 

E como homenagem, deixo essa música inspirada no filme.

 

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