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A Bela e a Fera (2016) consertou os erros da animação?

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Com recepção mista pelo público, Bela e a Fera (2017) tenta recontar a narrativa da animação de 1991 com atores reais, seguindo um caminho já bem trilhado de adaptações de animações clássicas para filmes live action (com atores reais da Disney. Porém, há algumas adições na história com a desculpa de “consertar” erros da animação original.

 

A pergunta é, existe mesmo a necessidade de arrumar esses erros históricos e narrativos? Um príncipe que some por 10 anos, uma pequena cidade com livraria, a Bela com síndrome de Estocolmo… Essas e outras questões são mostradas de forma diferente no live action e como História é meio que minha coisa aqui (tanto que, está no nome do site) decidi colocar a questão a prova, o live action consertou esses erros? Sequer há erros a serem consertados? Vamos descobrir!

 

O conto de fadas

Os filmes de 1991 e 2017 são adaptações do conto de fadas de mesmo nome publicado no século 18 por Madame de Villeneuve e reescrito poucos anos depois por Madame de Beaumont, essa sua versão mais famosa. Ambos os filmes seguem o conto com bastante fidelidade, tendo poucas diferenças da história original. Nada de mobília falante no conto, nada de seis irmãos para Bele nos filmes.

 

O contexto histórico do conto fez parte de uma “retomada” de autoras proto-feministas (que antecederam o movimento de libertação feminina de final do século 18, com Mary Wollstonecraft na Inglaterra e Olympe de Gouges na França) na França do Antigo Regime (período anterior a revolução francesa) que criaram histórias com foco nos personagens femininos, que geralmente são as protagonistas. A história tem esse ar de rebeldia desde sua criação.

 

O Live action

Adaptando praticamente quadro a quadro a animação de 1991, o filme faz um ótimo trabalho de adaptação, além de desenvolver melhor os arcos dos personagens envolvidos na trama. Apesar de muito criticada, decisões narrativas como a sexualidade do Le Fou ajudaram a dar um arco maior na história de quem antes era apenas um capacho. O relacionamento da Bela com a Fera é melhor desenvolvido (falarei mais a frente) e muitos outros personagens têm desenvolvimentos melhores.

 

Gastón por outro lado, é o único personagem que perde muito em comparação a animação. Sendo originalmente apenas um arrogante convencido, porém herói da vila, que começa a mergulhar na vilania após a rejeição que se transforma em pura obsessão por Bela, no filme é retratado já como um maníaco inseguro e desesperado desde o início. Não fazendo nenhum apelo a protagonista não rejeitá-lo. O que torna a negação de Bela menos uma decisão, mas como obrigação.

 

Erros históricos e a versão reformada

Bem, iremos agora ao foco do artigo. Há erros históricos a serem resolvidos? Apesar da história não deixar claro o lugar nem o período em que se passa (uma característica clara dos contos de fadas) é aceito que a história se passa no período em que foi escrita, durante a primeira metade do século (1700-1750) período anterior a revolução francesa (1789) chamado de Antigo Regime. Tenham isso em mente.

 

Um príncipe atendendo a porta?

A primeira reclamação da narrativa do filme é que muitos acham um absurdo ser o príncipe a atender a porta ao receber uma andarilha, e não seus serventes. No filme é mostrado que ninguém recepcionou a andarilha, ela apenas invadiu o lugar e falou diretamente com o príncipe.

 

Na animação, contada apressadamente com visual em vitrais, vemos o príncipe em pé a porta falando diretamente com a anciã. Como a decisão de receber ou não alguém no castelo tem de partir do príncipe, então é sensato que seja ele que vá falar com a viajante.

 

Como os primeiros segundos do filme são preciosos, a intenção era poupar o máximo de informação possível, por isso não fazia sentido mostrar os serventes primeiro atendendo a andarilha. E essa omissão destes que desencadeou o feitiço no castelo inteiro.

 

Eu não daria abrigo a uma velha desconhecida.

Na mesma cena, alguns defendem o príncipe por não receber uma estranha no castelo. Mas usando da mentalidade atual. Durante a idade média e moderna, era comum viajantes perdidos pedirem abrigo a noite. Se você for da nobreza local, era quase um código de honra receber esse tipo de pessoa num modesto quarto de hóspedes.

Num tempo anterior ao capitalismo, não exista uma diversa e complexa rede de hotéis espalhado pelos mundo. Existiam algumas poucas estalagens distantes uma da outra que não era tão úteis a alguém perdido a noite durante uma nevasca. Lembrando que a alternativa ao caso é mandar a pessoa enfrentar a morte sozinha.

 

Um príncipe some por dez anos… e ninguém liga?

No filme, é apresentado que parte do feitiço fazia com que o vilarejo esquecesse do castelo e de todos que lá trabalhavam, teria então o filme consertado a falha de que o príncipe some por dez anos… e ninguém deu por falta dele? Na verdade não precisaria dessa explicação, pois o contexto histórico explicaria essa falta de preocupação com o castelo.

 

A França da época vivia uma monarquia absolutista que concentrava todos os poderes no Rei, que delegava cada vez menos poderes às regiões. O Príncipe Adam (sim, esse é seu nome) não é necessariamente um governante filho de um monarca, mas sim um cargo simbólico com privilégios, mas sem muita voz política no vilarejo.

 

Em um período que culminaria na Revolução Francesa, a população burguesa (os pequenos comerciantes da cidade) se distanciava cada vez mais da nobreza, e nobres reclusos não eram incomuns.

 

O Espelho como janela ao mundo

Aqui nem o filme nem a animação faz questão de salientar algo mais esclarecido no conto, mas o espelho de mão era um artigo de luxo no período e a ideia de espelho para o mundo era bem metafórica para as pessoas da época. Em um conto escrito um século depois por Robert Stevenson, um de seus personagens faz a mesma alegoria do espelho como a janela para o mundo, que o fazia enxergar o mal que o tempo fazia a si próprio.

 

Uma pequena cidade francesa com uma livraria?

Na adaptação ao invés de termos um livreiro com uma robusta livraria que empresta livros a Bela, temos um padre com menos de uma dezena de livros a ler. O argumento é que uma cidade pequena daquele período, onde todos eram iletrados, não poderia ter uma livraria, está certo?

 

Na verdade, a França do período tinha uma produção literária impressionante, talvez a maior da Europa. O historiador Robert Darnton tem um extenso trabalho de pesquisa de comércio e produção de literatura do período que pode ser vista em livros como “Diabo na Água Benta” e “O Grande Massacre de Gatos”. Ainda que alguns sejam desinteressados em ler, existia sim muitos franceses letrados, mesmo nas cidades provincianas.

 

A parte estranha é o livreiro emprestar os livros ao invés de vendê-los a Bela. Não é a melhor estratégia de comércio. Mas o capitalismo como o conhecemos hoje ainda não era uma realidade.

 

Cidade provincial… meio movimentada, não?

Nesse caso o filme ainda agrava o problema. O que era um simples vilarejo com uma agitada praça comercial vira uma cidade robusta e densamente habitada, com Bela tendo o privilégio de ter um quintal mesmo em meio a cidade.

 

França, como já disse, era um dos centros comerciais da Europa no período e cidadelas como a da animação não eram difíceis de existir. Ainda que você imagina que Bela está reclamando de morar lá, é necessário acrescentar que a Paris mostrada no filme é bastante fiel à sua estrutura do período, há um século de engrenar numa revolução industrial.

 

A Bela sofre de Síndrome de Estocolmo?

Algo ventilado por todos os cantos da internet, acusam que o desenvolvimento do casal central da história nada mais é do que a descrição de alguém desenvolvendo uma síndrome de estocolmo e que o live action soube desenvolver melhor a relação, de forma natural. É verdade que o filme deu maior tempo para os dois desenvolverem a relação, mas mesmo a animação mostrou a relação florescer naturalmente.

Sobre esse assunto, ninguém disse melhor que a youtuber americana Chez Lindsay (antes conhecida como Nostalgia Chick), seu vídeo pode ser visto abaixo:

 

 

Um filme mais inclusivo

É muito legal que o live action seja mais inclusivo que a animação, com bastante personagens negros e gays. Todos sabemos o quanto a Disney foi monocrômica e heteronormativa por anos e que, no fundo, toda obra de ficção dialoga com o público atual, não com o passado.

 

Porém, tendo isso em mente e aproveitando a obra pelo seu caráter inclusivo, sabemos que esse não era o contexto histórico do período. A primeira luta pela abolição da escravidão foi na  revolução haitiana (ironicamente, colônia da França) e só aconteceu no final do século XVIII. A França mantinha o controle de diversas colônias na américa e antilhas e não tinha uma política muito inclusiva sobre raças. Alexandre Dumas pai, famoso escritor negro francês, só nasceu em 1802.

 

Homossexualidade ainda era considerado crime por toda a Europa, então a aceitação sobre si mesmo e socialmente da homossexualidade era uma problemática muito maior do que “vestir uma roupa feminina e se sentir bem com ela”. Então a intenção do filme é de atualizar a obra, não de deixá-la mais fiel.

 

Conclusão

O Filme é uma ótima adição a biblioteca de filmes da Disney e entrega uma versão encantadora de um dos seus maiores clássicos. Porém, ainda que bem intencionado, o live action não tinha muitos erros históricos a corrigir, portanto o live action é apenas uma abordagem diferente, que tem seu mérito como obra isolada, não por arrumar algo.

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