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Kek, Taylor Swift, Alt-Right e a pós-verdade

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Existe um culto nascente na internet a uma antiga deidade egípcia andrógina que prega a destruição? Em meio ao sucesso de diversas cantoras pop de etnias miscigenadas, Taylor Swift é o bastião da pureza racial e supremacia branca? Está na internet o centro ideológico da nova direita, altamente xenófoba, que conquista terreno na política mundial?

 

Entenda porque, no mundo da pós-verdade, os fatos e realidade não tem valor algum, boatos guiam a visão política e social da humanidade e a verdade é apenas um valor ultrapassado de um período anterior a pós-modernidade.

 

Alt Right – Existe de fato uma nova direita?

Seria muito difícil dizer que não existe uma nova direita anti imigração ganhando força na política mundial. Donald Trump se elegeu em parte pela promessa de construir um muro entre Estados Unidos e México. (Ainda que o discurso protecionista tenha agregado votos de diversos “swing states” do cinturão industrial americano).

 

A votação em favor da separação do Reino Unido se deu mais em parte pelo programa de tolerância a migração da zona do euro do que uma tentativa de se desvincular da moeda Euro (que vem lentamente tomando o lugar do dólar no câmbio mundial) e mais uma série de acontecimentos em escala menor na política mundial.

 

Mas, o quanto isso se deve a memes e páginas de humor na internet, e o quanto isso se refere a estrutura política mundial, com o lento desmoronamento de políticas sociais de governos progressistas ao redor do mundo? Indo mais além, como saber se as piadas e memes causam a xenofobia, ou se não são apenas um reflexo da força política que esse movimento está atingindo e a internet é apenas sua voz (como já expliquei nesse texto).

 

Num mundo onde todos os acontecimentos são fatos e tudo que reluz é ouro, seria muito simples apontar as causas e efeitos verificando as correlações dos acontecimentos. Infelizmente vivemos no que é chamado de pós-verdade, e por isso, tudo é um pouco mais complicado de esclarecer.

 

Taylor Sulfite, uma deusa ariana?

Em maio do ano passado, grandes veículos das mídias digitais (que estão pouco interessadas em conferir a confiabilidade das fontes, como já disse nesse texto) publicaram em massa artigos que ligavam a cantora de música pop e neo-country a grupos nazistas, que a elegeram como musa da supremacia branca.

 

Parte da brincadeira começou quando alguns usuários do 4chan (sempre eles) criaram imagens com citações de Hitler como se tivessem vindo da cantora (com fotos dela de fundo) e postando em sites como Pinterest. As imagens viralizaram quase imediatamente entre pessoas simples, presas fáceis dessas “pegadinhas”. O advogado da cantora mais tarde pediu a remoção de tais fotos da internet.

 

Com a viralização do ocorrido, diversos auto proclamados “defensores da supremacia branca” correram para defender a musa como um símbolo do nazismo. Andrew Anglin, talvez o mais famoso destes, comentou: “Taylor Swift é uma pura deusa ariana, como algo vindo da poesia clássica grega. Uma Atenas renascida.” Ele inclusive achou uma imagem da cantora abraçada com um rapaz com uma camiseta pintada com uma suástica, sem nenhum contexto, dizendo que a cantora abraça a causa.

 

A parte mais “divertida” é que a cantora faz questão de não transparecer sua posição política, tirando quando está em guerra contra os streams de música e comentar que estava “feliz pela eleição do Obama” num tuíte, oito anos atrás. O clipe Wildest Dream, tematizado na África, sem participação de personagens negros, também não ajudou muito.

 

Kek – de risada no WoW a deidade egípicia

O mundo de World of Warcraft é dividido por duas facções, a “Aliança” e a “Horda”, cada um com sua linguagem específica. Na horda, quando se digita LoL (laughing out loud, rindo alto) o jogo traduz para Kek. Logo diversas pessoas fãs do jogo e que aderem a horda, começaram a usar o kek em fóruns fora do jogo como se fosse uma risada, “o lol dos orcs” por assim dizer. Simples não?

 

Isso até a enorme adesão de pessoas comuns (que os channers chamam pejorativamente de normies) em situações fora de contexto, ou até mesmo pelo constante questionamento destes quando viam a palavra solta em algum fórum. Então, assim como ocorreu com o meme “pepe the frog” (como expliquei no outro post) o termo foi “sequestrado” e agora se trata de uma deidade egípcia que prega a destruição (e que, porque não? Virou símbolo da alt-right também).

 

Entenda porque você poderá ouvir o álbum Red da Taylor Swift (eu ouço, me julguem) e continuar rindo com “kek” que isso não te tornará parte da supremacia branca. Que tudo pode ser apenas uma grande pegadinha (ou não, vai saber).

 

Uma mentira se esconde melhor entre várias verdades

Como sempre, parte desse sequestro se dá com uma complicada mistura da realidade. Ao que parece (eu não dou certeza de mais nada a esse ponto) existia DE FATO uma deidade egípcia em forma de sapo que representava fertilidade com o nome Heqet e uma outra deidade andrógina, que talvez seja forjada (ainda que perfeitamente executada) chamada Kek, que simboliza a destruição.

 

A mitologia egípcia é recheada de deidades meio humanas, meio animais. Pela agricultura egípcia depender exclusivamente da inundação e seca do Rio Nilo para plantio de arroz (formando um pântano fértil que serve de perfeito de habitat para sapos e rãs) a existência de uma deidade meio sapo é altamente provável. As deidades egípcias também variam muito de dinastia para dinastia, deixando tudo ainda mais complicado de desmitificar.

 

O artigo do wikipedia da deidade Kek aponta duas obras de dois conceituados egiptólogos, Erik Hornung e E. A. Wallis Budge com apenas uma página do segundo autor disponível online com menção direta a Kek. Não existe a impossibilidade de essa deidade realmente existir. Mas o uso dela para esses fins que é o toque cômico de toda a situação.

 

A guerra aos normies teria ido longe demais?

Eu já escrevi alguns parágrafos sobre a guerra dos channers declarada contra os normies (pessoas normais que não conhecem bem a internet e enchem nossa timeline das redes sociais de gatinhos e correntes). Para ler esse texto, acesse aqui.

 

Basicamente tudo que viraliza e de alguma forma escapa da comunidade fechada, acaba sendo distorcido até que os “normies” abandonem ou passem a repudiar seu uso, mesmo que isso signifique assassinar um meme (duvido que você ainda compartilhe memes do pepe).

 

Porém, até que parte isso tudo é realmente uma brincadeira de mau gosto, ou realmente propaganda neonazista? Esse é o mundo complicado da pós-verdade. Um conceito pós moderno em essência que exercita a liquidez dos nossos tempos.

QUE DIABOS É PÓS-VERDADE?

Definida como “a palavra do ano de 2016” pela universidade de Oxford, a pós-verdade consiste que, os acontecimentos (o que alguns pobres plebeus chamam de fatos) não mais importam. Que, independente do decorrer do acontecimento, a leitura de pontos distintos sobre eles valem mais do que o incidente isolado.

 

Por exemplo, o boato de que o Papa São Francisco havia apoiado a candidatura de Donald Trump vale mais, pelo efeito social que causou, do que os jornais que trabalharam em desmentir esse acontecimento. Não interessa se Taylor Swift espalhou ou não, citações de Hitler no pinterest. Diversas adolescentes americanas propagaram o nazismo de qualquer jeito.

 

Existe de fato um deus egípcio chamado Kek? A página do wikipedia, com fontes citadas (melhor do que muito artigo presente na enciclopédia virtual, aliás), diz que sim! É certo usar essa deidade esquecida para simbolizar o neonazismo no século XXI? Claro que não, mas ele irá ser usado de qualquer jeito, e não há muita coisa a ser feita.

 

Um exemplo do cenário político nacional, por favor!

Ainda completamente rachada desde as eleições de 2014, os diversos acontecimentos decorrente do caos político (do impeachment, cassação de políticos e até alianças duvidosas) vem se separando em duas metanarrativas ideológicas identitárias majoritárias (duas leituras dos acontecimentos usados pelos maiores grupos ideológicos da política nacional) onde, além de serem altamente maleáveis conforme novos acontecimentos decorrem, se excluem mutuamente.

 

Por exemplo, do lado daqueles que defendem o governo deposto em 2015 (a qual são chamado de necro-governistas por seus críticos), o impeachment foi um elaborado golpe político delegado a acabar com os ganhos sociais do governo passado e instaurar um regime “neoliberal” (termo usado sempre sem contextualização). Todo acontecimento que negue esse fato, é um “golpe dentro do golpe”, para manter as aparências.

 

Do outro lado, aqueles que desprezam o antigo governo (os chamados “golpistas”, pelos críticos desse), dizem que o presidente interino, por ser parte do gabinete do antigo governo, ainda é passivo com a ideologia “esquerdista globalista” (que envolve até a ONU) e que somente um firme candidato da direita (que segundo os mais radicais, não existe no Brasil) é que o país estará realmente liberto.

 

A pior parte é que, não importa se você está longe de sustentar qualquer uma dessas “leituras da realidade”. Se você critica o antigo governo é um “golpista neoliberal”, se você faz algum apelo por justiça social e equidade, você é um “petista, necro-governista”. Mostrando diretamente que, o que você sabe e defende, não importa. Onde você se encaixa nas metanarrativas sim.

 

Conclusão

Batendo na mesma tecla o texto inteiro. Não dá pra saber ao certo até que ponto a Alt-Right é um movimento legítimo ou apenas uma brincadeira que foi longe demais. É bastante difícil entender até que ponto o renascimento da direita conservadora na política internacional é fomentada por essas brincadeiras, ou reflexo do fracasso de governos progressistas.

 

Nesse mundo onde boatos se espalham com mais facilidade do que notícias reais (se é que a realidade sequer existe), nada é seguro afirmar. Ou, como um amigo meu me disse uma vez, quando comentei justamente que não dá pra saber que parte do memepolitics (política memética) é de fato real, que parte é zoeira ele me disse: “Talvez, o erro está em pensarmos que há uma diferença”.

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2 COMENTÁRIOS

  1. ““Taylor Swift é uma pura deusa ariana, como algo vindo da poesia clássica grega. Uma Atenas renascida.”

    Todo mundo com um mínimo de conhecimento sabe que os Gregos são morenos e mais próximos aos Norte Africanos do que aos Norte Europeus, e eram ainda mais antes das Invasões Bárbaras do século 5.

    • Quem está disposto a dizer que Taylor Swift é um símbolo neonazista, não está muito preocupado em desmentir a etnia grega clássica hahaha

      Esse argumento de gregos brancos e puros é usado (sem comprovação, claro) desde o terceiro Reich. Esse cara da citação apenas tá dando mais corda

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