{"id":1825,"date":"2018-01-10T15:38:18","date_gmt":"2018-01-10T15:38:18","guid":{"rendered":"http:\/\/historiadorgeek.com.br\/?p=1825"},"modified":"2018-01-10T15:41:27","modified_gmt":"2018-01-10T15:41:27","slug":"intertextualidade-na-serie-do-justiceiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadorgeek.com.br\/index.php\/2018\/01\/10\/intertextualidade-na-serie-do-justiceiro\/","title":{"rendered":"Intertextualidade na s\u00e9rie do Justiceiro"},"content":{"rendered":"<p>Havia feito esse rascunho do texto quando assisti o primeiro epis\u00f3dio de Justiceiro pela Netflix e fiquei absolutamente encantado com a premissa da s\u00e9rie e o trabalho de elementos dentro da narrativa. Infelizmente a s\u00e9rie n\u00e3o atendeu as suas premissas e acabei desanimando de postar. Por\u00e9m ainda sim, acho que as li\u00e7\u00f5es sobre intertextualidades no primeiro epis\u00f3dio s\u00e3o importantes, por isso insisto no texto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No primeiro epis\u00f3dio temos personagens lendo dois livros diferentes e uma m\u00fasica de encerramento que certamente se relaciona com a narrativa que procuravam desenvolver durante os epis\u00f3dios. Essa ideia de misturar elementos de outras m\u00eddias (livros e m\u00fasicas) dentro de uma narrativa \u00e9 chamado de intertextualidade. Vamos abordar cada obra em separado:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Moby Dick<\/b><\/p>\n<p>Livro cl\u00e1ssico da literatura americana escrito por Herman Neville, o livro se trata da obsess\u00e3o do capit\u00e3o de um navio baleeiro em capturar uma famosa cachalote branca chamada Moby Dick, que o aleijou numa viagem passada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria se passa pela vis\u00e3o de Ismael, um novo marinheiro que se interessa pelo com\u00e9rcio de ca\u00e7a de baleias e acompanha primeiramente encantado e depois perturbado pela obsess\u00e3o de seu capit\u00e3o pela monstruosa baleia. Pelo peso cl\u00e1ssico do livro na literatura americana, ele \u00e9 constantemente referenciado em diversas obras narrativas americanas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua alus\u00e3o nessas obras \u00e9 para destacar as motiva\u00e7\u00f5es insaci\u00e1veis de uma pessoa por um objetivo que ela n\u00e3o pode alcan\u00e7ar. Geralmente a hist\u00f3ria de um homem mortal contra uma for\u00e7a da natureza. No caso de Castle pode se levar tanto a ideia de guerra ao crime como o desejo de lidar com o trauma de seu passado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>The Crack-Up<\/b><\/p>\n<p>Essa um pouco menos famosa que a anterior, trata de uma cole\u00e7\u00e3o de ensaios e recortes proporcionada pelo tamb\u00e9m escritor americano F. Scott Fitzgerald, e \u00e9 j\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo do primeiro ensaio que temos uma pista sensata de como essa obra se relaciona com a hist\u00f3ria de Frank Castle:<\/p>\n<p>\u201cClaro que toda a vida \u00e9 um processo de quebra, mas os golpes que fazem o lado dram\u00e1tico do trabalho &#8211; os grandes golpes s\u00fabitos que v\u00eam, ou parecem vir, de fora &#8211; aqueles que voc\u00ea se lembra e culpa as coisas e, em alguns momentos de fraqueza, conta aos seus amigos, n\u00e3o mostram seu efeito de uma s\u00f3 vez. H\u00e1 outro tipo de golpe que vem de dentro &#8211; que voc\u00ea n\u00e3o sente at\u00e9 que seja tarde demais para fazer algo, at\u00e9 voc\u00ea perceber com finalidade que, em algum aspecto, voc\u00ea nunca mais ser\u00e1 um homem t\u00e3o bom novamente. O primeiro tipo de ruptura parece acontecer r\u00e1pido &#8211; o segundo tipo acontece quase sem o seu conhecimento, mas \u00e9 percebido repentinamente, de fato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes de continuar com essa breve hist\u00f3ria, deixe-me fazer uma observa\u00e7\u00e3o geral &#8211; o teste de uma intelig\u00eancia de primeira linha \u00e9 a capacidade de manter na mente duas ideias opostas ao mesmo tempo e ainda manter la funcional. Algu\u00e9m deve, por exemplo, ser capaz de ver que as coisas s\u00e3o desesperan\u00e7osas e, no entanto, estar determinado a faz\u00ea-las de qualquer forma. Esta filosofia se ajustou \u00e0 minha vida adulta precoce, quando vi o improv\u00e1vel, o inveross\u00edmil, as vezes o &#8220;imposs\u00edvel&#8221;, tornado realidade. A vida era algo que voc\u00ea dominava se voc\u00ea fosse bom.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vida rendia facilmente a intelig\u00eancia e o esfor\u00e7o, ou a propor\u00e7\u00e3o que poderia ser reunida de ambos. Parecia um empreendimento rom\u00e2ntico tornar-se um homem liter\u00e1rio bem-sucedido &#8211; voc\u00ea nunca seria t\u00e3o famoso como uma estrela de cinema, mas o que voc\u00ea teve provavelmente ser\u00e1 mais longo; voc\u00ea nunca teria o poder de um homem de fortes convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou religiosas, mas voc\u00ea certamente era mais independente. Claro que, na pr\u00e1tica do seu com\u00e9rcio, voc\u00ea estava sempre insatisfeito &#8211; mas eu, por exemplo, n\u00e3o teria escolhido nenhum outro.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse trecho dialoga claramente com a tentativa de Castle de lutar contra o trauma que mudou sua vida radicalmente. Sobre a habilidade de manter a mente s\u00e3 sobre duas ideias opostas (no caso do Justiceiro, declarar guerra ao crime sabendo que o crime nunca deixar\u00e1 de existir) \u00e9 o passo final que o empurra de volta a seu caminho contra o crime e atendendo ao seu chamado de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Tom Waits &#8211; Hell broke luce<\/b><br \/>\nA m\u00fasica de Tom Waits que toca no final do primeiro epis\u00f3dio, que pode ser traduzida como algo do tipo \u201cO inferno se rompeu\u201d fala de um veterano militar atormentado por suas atitudes durante a guerra. A vida dif\u00edcil que ex militares encontram nos EUA ap\u00f3s o per\u00edodo de alistamento \u00e9 frequentemente abordada nas reuni\u00f5es de veteranos no epis\u00f3dio, e um assunto tabu nos EUA de modo geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A m\u00fasica comenta de como a mente de um ex soldado \u00e9 pra sempre modificada na guerra, mostrando como ele foi afetado literalmente \u201csurdo pela bomba\u201d e como os afeta figurativamente (a guerra me deixou cego). Sendo o background militar algo essencial no desenvolvimento de Castle como personagem, essa m\u00fasica quase ecoa os tormentos que ele carrega no esp\u00edrito.<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o<\/b><br \/>\nA s\u00e9rie n\u00e3o conseguiu viver ao seu pr\u00f3prio hype. Por vezes morna e parada, com aten\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento de hist\u00f3rias interessantes (fam\u00edlia do Micro, estamos de olho) al\u00e9m do quase completo abandono do foco principal do personagem, o combate ao crime, temos em Punisher uma s\u00e9rie que come\u00e7a fazendo a li\u00e7\u00e3o de casa, dando um in\u00edcio satisfat\u00f3rio e bem constru\u00eddo, para depois se perder em meio ao caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia feito esse rascunho do texto quando assisti o primeiro epis\u00f3dio de Justiceiro pela Netflix e fiquei absolutamente encantado com a premissa da s\u00e9rie e o trabalho de elementos dentro da narrativa. Infelizmente a s\u00e9rie n\u00e3o atendeu as suas premissas e acabei desanimando de postar. 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