{"id":1517,"date":"2017-04-07T17:50:33","date_gmt":"2017-04-07T17:50:33","guid":{"rendered":"http:\/\/historiadorgeek.com.br\/?p=1517"},"modified":"2017-04-07T17:50:33","modified_gmt":"2017-04-07T17:50:33","slug":"usando-patologias-em-filmes-de-terror-fragmentado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadorgeek.com.br\/index.php\/2017\/04\/07\/usando-patologias-em-filmes-de-terror-fragmentado\/","title":{"rendered":"Usando patologias em filmes de terror (Fragmentado)"},"content":{"rendered":"<p>Em Fragmentado, o protagonista sofre com diversas personalidades que tentam tomar controle de seu corpo. As personalidades se organizam pelo nome de \u201cA Horda\u201d e assumem o controle do corpo de forma alternada. O objetivo deles \u00e9 conjurar uma personalidade super poderosa que \u201clibertaria\u201d as personalidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com isso, a obra traz o questionamento \u00e9tico, \u00e9 aceit\u00e1vel que um filme use uma doen\u00e7a psicol\u00f3gica como motiva\u00e7\u00e3o de personagem? Existe algum limite para o que uma obra de fic\u00e7\u00e3o pode inventar e o que ela deve permanecer fact\u00edvel dentro dessa tem\u00e1tica? Quais os limites que podem ser explorados numa narrativa? S\u00e3o essas perguntas que pretendo descobrir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O Retorno de Night Shyamalan?<\/b><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o grande sucesso de Sexto Sentido e boa recep\u00e7\u00e3o do merecedor mas n\u00e3o t\u00e3o aclamado Corpo Fechado, diversos cr\u00edticos veem um claro decl\u00ednio na carreira do diretor, uns notando a decad\u00eancia ap\u00f3s os filmes \u201cFim dos Tempos\u201d e \u201cA Dama da \u00c1gua\u201d e outros mais maldosos (como eu) vendo problemas j\u00e1 em \u201cSinais\u201d e \u201cA Vila\u201d, o diretor antes famoso por seus grandes plot twists, acabou se tornando previs\u00edvel e com narrativas desinteressantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Felizmente Fragmentado tr\u00e1s um \u00f3timo retorno que, ainda n\u00e3o a altura dos primeiros filmes, traz um empolgante suspense. Com atua\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis de James McAvoy fazendo diversas personalidades e a jovem Anya Taylor\u2011Joy que vem fazendo nome no terror por estrelar \u201cA Bruxa\u201d e \u201cMorgan\u201d (ambos de 2016) o filme se vende j\u00e1 pelos personagens principais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o filme gerou um debate sobre o qu\u00e3o \u00e9tico \u00e9 o uso do Transtorno de Identidade para criar o papel de um vil\u00e3o, e se filmes de terror deveriam continuar usando esse m\u00e9todo. H\u00e1 algum limite para esse tipo de abordagem?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Liberdade de express\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Antes de mais nada, \u00e9 preciso entender que o cinema, como uma express\u00e3o art\u00edstica e uma m\u00eddia narrativa, precisa ter como fundamento a liberdade de express\u00e3o para que a criatividade possa ser exercida livremente. Implicar censura e proibi\u00e7\u00e3o em narrativas por quaisquer motivos que sejam, acabam por reduzir o potencial est\u00e9tico das obras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda sim, \u00e9 necess\u00e1rio entender a influ\u00eancia do discurso de uma obra na sociedade e como ela influencia o meio social. Aliado ao ressentimento do sul americano com a derrota \u00a0na guerra civil, o sucesso de \u201cO Nascimento de uma Na\u00e7\u00e3o\u201d contribuiu para o nascimento da Ku Klux Klan e a revigora\u00e7\u00e3o do racismo nacionalista americano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00e9m uma proibi\u00e7\u00e3o de tais obras apenas geram um renovado interesse por um falso aspecto contestador e transgressor de uma ordem aparente. Tais obras t\u00eam de ser sim permitidas, por\u00e9m desmascaradas pelos seus cr\u00edticos e expostas pela mensagem cruel ou distorcida que passam. Para averiguar a seriedade com que o filme trata a doen\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio uma an\u00e1lise da pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Transtorno Dissociativo de Identidade, um Diagn\u00f3stico<\/b><\/p>\n<p>Ap\u00f3s ser obrigado a lidar com algum trauma psicol\u00f3gico, algumas pessoas \u201cdisassociam\u201d e formam novas personalidades para poderem se desligar momentaneamente do corpo. Ainda um diagn\u00f3stico dif\u00edcil pela falta de pesquisa e sem a descoberta de uma cura at\u00e9 o momento, o TDI \u00e9 tratado em terapias, sendo apenas os sintomas associados a doen\u00e7a (como depress\u00e3o) tratados com rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar do que foi mostrado no filme e do que \u00e9 constru\u00eddo no imagin\u00e1rio popular, pessoas com TDI n\u00e3o demonstram personalidades agressivas, sendo geralmente pessoas mais fr\u00e1geis e assustadas devido ao trauma. As personalidades n\u00e3o ret\u00e9m mem\u00f3ria uma da outra. E como esses elementos s\u00e3o tratados no filme?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fragmentado, um relato fact\u00edvel sobre TDI?<\/b><\/p>\n<p>Em nenhum momento do longa o filme tenta se passar como fact\u00edvel ou baseado na realidade. Apesar de v\u00e1rios elementos da doen\u00e7a serem bastante destoantes do filme, a narrativa progressivamente ruma a fantasia e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica entrando no mundo de super her\u00f3is \u201csemi-realistas\u201d j\u00e1 estabelecido por Corpo Fechado.<\/p>\n<p>Dessa forma, toda a narrativa \u00e9 trabalhada sobre hip\u00f3teses cient\u00edficas que naturalmente se distanciam da realidade, algo pr\u00f3prio do g\u00eanero. E SE uma pessoa que sofre de TDI, possa ganhar super poderes? E SE ela desenvolvesse personalidades agressivas? \u00c9 esse tipo de quest\u00e3o que o filme tenta propor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda sim, o filme pode sim gerar uma no\u00e7\u00e3o negativa do p\u00fablico comum as pessoas que sofrem de TDI, e \u00e9 esse o papel dos cr\u00edticos de chamarem a aten\u00e7\u00e3o que o longa \u00e9 um trabalho de fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o um document\u00e1rio sobre a doen\u00e7a. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que os divulgadores cient\u00edficos da psiquiatria tornem popular os m\u00e9todos de diagn\u00f3stico e tratamento da TDI. Por\u00e9m o hist\u00f3rico de explora\u00e7\u00e3o de patologias em filmes de horror existe com alguma frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Um hist\u00f3rico de patologias em filmes de terror<\/b><\/p>\n<p>Fragmentado de longe n\u00e3o \u00e9 o primeiro filme a usar uma doen\u00e7a psicol\u00f3gica como motor da trama. Um trope muito comum em narrativas de terror, ter um protagonista ou antagonista com algum transtorno ps\u00edquico \u00e9 quase uma regra dentro do g\u00eanero \u201cterror psicol\u00f3gico\u201d. A crueldade e indiferen\u00e7a do personagem Dr. Hannibal Lecter de \u201cO Sil\u00eancio dos Inocentes\u201d \u00e9 o cl\u00e1ssico caso do psicopata frio e desapegado de emo\u00e7\u00f5es que influenciou tantos personagens (como a s\u00e9rie Dexter).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No terceiro filme da s\u00e9rie chamada \u201cDrag\u00e3o Vermelho\u201d temos tamb\u00e9m um antagonista com TDI, mas com apenas duas personalidades (um hist\u00f3rico que remete ao livro O M\u00e9dico e o Monstro). Em \u201cAlucina\u00e7\u00f5es do Passado\u201d, temos um protagonista que sofre de stress p\u00f3s traum\u00e1tico, lutando para saber o que \u00e9 real ou fantasioso em sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fragmentado se situa meio que no meio disso tudo. Trata com mais respeito a doen\u00e7a e consegue ser menos sensacionalista do que obras no passado foram (ao tratar todo o caso como uma dualidade de bem e mal), por\u00e9m ainda sim usa esses elementos quando conv\u00e9m a narrativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qual sua opini\u00e3o, acha que a abordagem foi desrespeitosa? Acha que o filme, como obra fict\u00edcia, alcan\u00e7ou seus objetivos como obra narrativa? N\u00e3o esque\u00e7a de comentar!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Fragmentado, o protagonista sofre com diversas personalidades que tentam tomar controle de seu corpo. As personalidades se organizam pelo nome de \u201cA Horda\u201d e assumem o controle do corpo de forma alternada. 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