{"id":1209,"date":"2016-09-21T21:59:35","date_gmt":"2016-09-21T21:59:35","guid":{"rendered":"http:\/\/historiadorgeek.com.br\/?p=1209"},"modified":"2016-09-22T15:17:05","modified_gmt":"2016-09-22T15:17:05","slug":"gone-home-e-o-uso-ludico-do-romance-epistolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/historiadorgeek.com.br\/index.php\/2016\/09\/21\/gone-home-e-o-uso-ludico-do-romance-epistolar\/","title":{"rendered":"Gone Home e o uso l\u00fadico do Romance Epistolar"},"content":{"rendered":"<p>Com uma narrativa emocionante e um gameplay simples que beira ao minimalismo, Gone Home vai na contram\u00e3o de tudo o que definido como &#8220;jogo&#8221; e \u00e9 tomando praticamente como regra pela ind\u00fastria na hora da cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um game.<\/p>\n<p>Mas&#8230; o que faz o jogo ser t\u00e3o envolvente? Al\u00e9m de uma \u00f3tima escrita, o jogo conta com o uso de uma t\u00e9cnica liter\u00e1ria cl\u00e1ssica chamada Romance Epistolar e, apesar de n\u00e3o ser a primeira vez usada em um jogo, \u00e9 levado quase a perfei\u00e7\u00e3o. Conhe\u00e7a mais sobre o jogo e essa t\u00e9cnica.<\/p>\n<p><strong>Um resumo sem spoilers<\/strong><\/p>\n<p>Gone Home \u00e9 exatamente um daqueles jogos que qualquer descri\u00e7\u00e3o mais precisa pode estragar a experi\u00eancia de jog\u00e1-lo. Digamos apenas que voc\u00ea assume o papel de uma estudante universit\u00e1ria que acaba de voltar para casa mas encontra a mans\u00e3o vazia sem nenhum motivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cabe ent\u00e3o ao personagem desbravar a mans\u00e3o onde morou no passado e lentamente recolher pistas e desvendar segredos para entender o que se passou recentemente na casa, tudo com uma atmosfera de mist\u00e9rio e suspense que cativa qualquer f\u00e3 de jogos de terror, sem chegar a ser exatamente um jogo de horror.<\/p>\n<p><strong>Gameplay minimalista<\/strong><\/p>\n<p>Contrariando o que \u00e9 estabelecido para os jogos como m\u00eddia, Gone Home \u00e9 uma curta experi\u00eancia que pode durar entre uma e duas horas onde n\u00e3o h\u00e1 combates e nem antagonistas. N\u00e3o h\u00e1 um sistema de pontos ou leveis que empurram o gameplay como uma caixa de skinner distribuindo recompensas. Todo o desenrolar da hist\u00f3ria \u00e9 feito por textos e mensagens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo conspira para que o jogo seja um desastre, mas\u2026 o que faz de Gone Home uma experi\u00eancia t\u00e3o incr\u00edvel? Sem d\u00favida o maior feito do jogo \u00e9 ter uma hist\u00f3ria perfeitamente bem escrita que nos carrega pelo jogo com uma profundidade surpreendente. O recurso principal da narrativa \u00e9 adaptada de uma t\u00e9cnica liter\u00e1ria que amo muito chamada: \u201cromance epistolar\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Romance epistolar<\/b><\/p>\n<p>Muito popular durante os per\u00edodos do romantismo e da literatura g\u00f3tica, trata-se de uma t\u00e9cnica liter\u00e1ria de avan\u00e7ar a hist\u00f3ria (totalmente ou n\u00e3o) pela forma de cartas e outros documentos liter\u00e1rios exteriores \u00e0 obra. Ep\u00edstola vem do latim \u201c<i>epistol\u00e1ris\u201d <\/i>e quer dizer \u201ccarta\u201d (quem assiste chaves sabe disso) e \u00e9 por meio desses pequenos trechos narrativos que toda a hist\u00f3ria \u00e9 montada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns livros bastante famosos que adotam essa t\u00e9cnica s\u00e3o: Frankenstein, ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley, onde a hist\u00f3ria se passa inteiramente atrav\u00e9s da troca de correspond\u00eancia entre um navegante e explorador com sua irm\u00e3, contando sua experi\u00eancia nas \u00e1guas do polo norte e as aventuras do doutor Victor Frankenstein. E \u201cO M\u00e9dico e o Monstro\u201d que, apesar de ter uma parte da narrativa contada pelo protagonista, o advogado Sr Utterson, cont\u00e9m alguns elementos epistolares como cartas, not\u00edcias de jornais e testamentos. Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe e muitas outras obras usam o mesmo recurso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O uso l\u00fadico do Romance epistolar<br \/>\n<\/b><\/p>\n<p>L\u00fadico vem de ludologia, que se refere ao ato de jogar ou ao atributo do jogo em si. Nesse contexto que usei diz praticamente sobre o uso do recurso liter\u00e1rio que \u00e9 incorporado a mec\u00e2nica do jogo.<\/p>\n<p>Obviamente n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que pequenos trechos liter\u00e1rios mais t\u00e9cnicos como arquivos, registros e cartas fazem parte do enredo de um jogo. Talvez o g\u00eanero de jogos digitais que mais toma proveito disso \u00e9 o Survival Horror, que conta com os famosos \u201cfiles\u201d para aprofundar melhor o enredo para quem quer se familiarizar com a hist\u00f3ria. Isso funciona claramente em Silent Hill e Resident Evil e foi adaptado ou usado de certa forma para todos os outros jogos do g\u00eanero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode se dizer que alguns RPGs mais interessados na narrativa est\u00e3o adaptando este conceito. Diablo 3 adapta a fun\u00e7\u00e3o de um naturalista ou besti\u00e1rio (cat\u00e1logo de monstros e animais fant\u00e1sticos comuns na idade m\u00e9dia) para descrever cada monstro enfrentado no jogo, mais tarde adaptando a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio naturalista para a hist\u00f3ria do jogo. Skyrim e Fallout 4, ambos da Bethesda, distribuem pequenos peda\u00e7os de narrativas durante o gameplay da mesma forma que os survival horrors.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>E em Gone Home?<\/b><\/p>\n<p>O que difere Gone Home de todas essas experi\u00eancias anteriores \u00e9 que esse recurso n\u00e3o \u00e9 um mero adicional, mas toda a ess\u00eancia de gameplay. A recompensa de se avan\u00e7ar na hist\u00f3ria e desbravar os puzzles \u00e9 saber um pouco mais da hist\u00f3ria por forma de uma narrativa em off de um dos personagens. Com os pequenos relatos deste, podemos montar melhor a hist\u00f3ria por completo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gone Home atualiza um conceito central dos adventures dos anos 90 para os tempos atuais atrav\u00e9s de uma adapta\u00e7\u00e3o em conjunto com o gameplay do que ficou conhecido como \u201cwalking simulator\u201d. E sem d\u00favidas tudo n\u00e3o seria um sucesso se n\u00e3o fosse pela escrita praticamente impec\u00e1vel de sua narrativa, que lentamente vai nos enrolando em sua trama at\u00e9 que n\u00e3o ficamos satisfeitos enquanto n\u00e3o terminarmos para entender de fato, o que diabos aconteceu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o sem spoilers<\/b><\/p>\n<p>Gone Home \u00e9 uma grande experi\u00eancia narrativa que mostra toda a potencialidade narrativa dos jogos digitais como m\u00eddia e que derruba os principais mitos da cria\u00e7\u00e3o e design de jogo de que existem regras preconcebidas e um modelo r\u00edgido para se criar um videogame e dos limites do jogo como m\u00eddia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua narrativa e a forma simplista de como o jogo foi feito \u00e9 um \u00f3timo exemplo para o desenvolvimento de jogos focados na hist\u00f3ria que praticamente exclui um sistema de combate ou recompensas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o poderei seguir em frente sem dar alguns spoilers do enredo. Portanto se voc\u00ea n\u00e3o jogou Gone Home, primeiro termine ele e depois leia os \u00faltimos par\u00e1grafos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o com Spoilers<\/b><\/p>\n<p>[SPOILERS] <span style=\"color: #ffffff;\">Gone Home n\u00e3o \u00e9 tanto sobre uma estudante que est\u00e1 voltando da Europa para sua casa, mas sim sobre a hist\u00f3ria de uma garota que est\u00e1 lutando para se entender com sua sexualidade e que acaba se apaixonando por uma amiga.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">Podemos acompanhar todos seus conflitos pela forma como \u00e9 tratado na hist\u00f3ria. Desde os primeiros momentos de admira\u00e7\u00e3o pela amiga e inseguran\u00e7a com os seus sentimentos, que percorre pelo lento desenrolar de seus sentimentos, at\u00e9 o momento de consuma\u00e7\u00e3o dos seus desejos. N\u00e3o sem deixar algumas pistas sobre a rea\u00e7\u00e3o dos pais com a sexualidade de sua filha, que ironicamente n\u00e3o est\u00e3o passando por um bom momento em sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">A forma de como a hist\u00f3ria se desenrola enquanto n\u00e3o s\u00f3 o jogador, mas tamb\u00e9m a protagonista do jogo observa passivamente o desenrolar de tudo, nos traz um grande exerc\u00edcio de empatia n\u00e3o s\u00f3 com a personagem, mas com toda a causa LGBT. Mostrando que os jogos digitais tem sim, um grande potencial narrativo que nos afeta de forma que apenas uma obra de arte faria, e que Gone Home usa sabiamente para extrapolar qualquer limite restritivo dos jogos digitais como m\u00eddia.<\/span><\/p>\n<p>[\/SPOILERS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma narrativa emocionante e um gameplay simples que beira ao minimalismo, Gone Home vai na contram\u00e3o de tudo o que definido como &#8220;jogo&#8221; e \u00e9 tomando praticamente como regra pela ind\u00fastria na hora da cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um game.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1222,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[36],"tags":[10,31,11,4,17,30],"class_list":["post-1209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-reviews-e-guias","tag-critica","tag-drama","tag-estetica","tag-games","tag-genero","tag-hqs-e-literatura"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.3 - 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