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Religiosidade, ambientalismo e feminismo em Mãe (2017)

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Causando muita confusão em espectadores desprevenidos da potencialidade simbólica e alegórica do filme, Mãe conseguiu alguns elogios apaixonados de críticos de cinema ao mesmo passo das reclamações de pessoas que esperavam um filme de terror com uma narrativa mais tradicional.

 

Mãe tem em seu enredo diversas camadas de interpretação sendo a primeira gritante e óbvia alegoria da cristandade, uma segunda mais sutil sobre ambientalismo e uma terceira e mais delicada crítica a relação de poder em uma estrutura patriarcal de sociedade. Neste texto pretendo dissecar as três interpretações e demonstrar como elas dialogam.

 

Religiosidade

Sendo as alegorias mais óbvias durante o filme, podemos ver diversas cenas que dialogam diretamente com a religiosidade cristã e toda sua estrutura simbólica. O personagem de Javier Bardem (nenhum personagem do filme tem nome, irei chamá-lo de Ele) é simbolicamente a figura do Deus cristão, no filme representado por um poeta com bloqueio criativo (essa informação será importante mais a frente).

 

Tanto a personagem de Jennifer Lawrence como a casa em si representam a terra e a figura alegórica da mãe natureza (o que detalharei mais a frente com precisão). O primeiro homem a chegar na casa é Adão, a cena no banheiro onde o mesmo tem um machucado na costela representa a origem de Eva, que aparece na história já no dia seguinte.

 

A peça de vidro representa a essência da vida e o fruto proibido, por isso quando o artefato é quebrado por curiosidade da mulher (pecado original) ambos são expulsos do quarto (Jardim do Éden) e impedidos de voltar para sempre. As microagressões do casal à Mãe escalam até a luta dos filhos que termina na morte do mais novo, representados pela briga de Caim e Abel.

 

Mesmo após esse incidente a família do casal continua a invadir a casa e abusar cada vez mais da hospitalidade de Mãe (queda do homem), causando o acidente na pia (dilúvio de Noé) fazendo com que a Mãe expulse as pessoas de sua casa, levando a um curto período de paz que geraria a criação do filho (Jesus).

 

É somente quando notada a gravidez que Ele consegue finalmente fazer o seu poema, que seria o grande sucesso de sua carreira, remetendo ao início do Evangelho de João onde o discípulo descreve Jesus como “O Verbo” (por isso Deus é relacionado a figura do poeta).

 

A idolatria ao bebê traz enorme desconforto a Mãe, mesmo com os presentes simbólicos recebidos (três reis magos). Seus temores se confirmam quando, Ele leva o Filho para os humanos adorarem e o sacrificarem (paixão de cristo) para então devorar sua carne (eucaristia).

 

A editora d’Ele, chamada Herald (arauto, tanto um nome comum para jornais americanos, como definição de profeta) representa a religião institucionalizada que incentiva a idolatria d’Ele que desencadeia um grande ciclo de conflito e violência marcada por guerras e revoluções.

 

Por fim tudo caminha de forma invariável ao apocalipse, destruindo e consumido toda a existência pela chama onde nada sobrevive, nem mesmo a Mãe. Apenas a forma d’Ele que deseja reconstruir tudo do zero a partir da essência da vida  de Mãe e iniciar assim, mais um ciclo de sofrimento com uma nova Mãe.

 

Ambientalismo

A segunda linha de análise desse filme gira mais certamente em torno da mãe e da casa, que representam simultaneamente a mãe natureza, sendo as duas uma coisa só. A cena que melhor retrata isso é quando Mãe coloca a mão na parede e pode sentir seu próprio coração.

 

O começo é tranquilo e calmo até a chegada de visitantes (humanos) que progressivamente desrespeitam a hospitalidade da mãe escalando sua destruição conforme mais pessoas se manifestam no ambiente, mesmo que aparentemente benéficas como pintar a casa (modificação do ambiente).

 

É possível notar que todas as vezes que a Mãe se irrita com seus hóspedes, desastres naturais são representados como o dilúvio pelo vazamento da pia, as trovoadas que são escutadas quando Mãe grita, o terremoto que parte o chão da casa e finalmente a grande explosão incendiária no final causada pelo óleo do aquecedor.

 

O interessante dessa abordagem é que vemos a exploração dos recursos naturais pelos humanos do ponto de vista da terra, onde estranhos chegam massivamente a sua casa e desrespeitam a soberania de seu dono. Um grande pesadelo para introvertidos e portadores de fobias sociais ao se sentirem violados e inseguros em sua própria residência.

 

Feminismo

Finalmente a abordagem mais sutil do filme. Mãe além de tudo que já foi dito, é uma abordagem narrativa crítica da relação de poder e patriarcado entre uma figura de poder masculina e uma figura feminina submissa. Refletindo como a figura materna da mãe natureza é subordinada a uma figura autoritária de um Deus masculino, um arquétipo comum não só na religião cristã como em diversas mitologias.

 

O primeiro ato do filme coloca Mãe como a clássica figura de dona de casa enquanto Ele fica afastado em seu trabalho criativo. Quando os visitantes constantemente desrespeitam mãe e sua casa, Ele é complacente com os visitantes ao invés de auxiliar sua esposa. Quando um dos irmãos se revela assassino e foge para a floresta, Ele prefere ajudar a família ao ficar em casa e proteger Mãe. Esse tipo de comportamento é uma constante durante todo o filme.

 

Uma das grandes influências narrativas do filme é o clássico de terror psicológico “O Bebê de Rosemary”. Em ambos temos uma protagonista casada com um profissional criativo (ne caso, um ator) que sacrifica o bem estar de sua jovem esposa em nome da sua obra criativa, usando a jovem para seu próprio benefício.

 

Em uma cena bastante simbólica, quando Mãe é agredida por uma turba enfurecida que matou seu filho, todas as agressões verbais são relacionadas a ofensas machistas direcionadas a mulheres, e enquanto é agredida suas vestes são rasgadas deixando seu corpo à mostra, demonstrando uma conotação sexual a agressão.

 

Uma frase dita dentro do próprio filme é que Ele é refém do próprio ego, ele não ama ninguém, apenas nutre e se alimenta do amor e idolatria que outras pessoas sentem por ele, e é esse último sentimento de amor e devoção da Mãe que continua alimentar esse ciclo infinito de sofrimento que Ele se propõe a continuar.

 

Conclusão

Mãe é um filme completamente alegórico e simbólico onde as cenas só dizem nas entrelinhas. Qualquer pessoa que vá assistir o filme esperando uma narrativa progressiva e realista centralizada em acontecimentos sequenciais e sustos gratuitos irá sair completamente frustrada, pois Mãe deixa de lado até mesmo as nuances de um horror psicológico e adentra num mundo mais depressivo e traumático de um drama psicológico.

 

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