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Usando patologias em filmes de terror (Fragmentado)

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Em Fragmentado, o protagonista sofre com diversas personalidades que tentam tomar controle de seu corpo. As personalidades se organizam pelo nome de “A Horda” e assumem o controle do corpo de forma alternada. O objetivo deles é conjurar uma personalidade super poderosa que “libertaria” as personalidades.

 

Com isso, a obra traz o questionamento ético, é aceitável que um filme use uma doença psicológica como motivação de personagem? Existe algum limite para o que uma obra de ficção pode inventar e o que ela deve permanecer factível dentro dessa temática? Quais os limites que podem ser explorados numa narrativa? São essas perguntas que pretendo descobrir.

 

O Retorno de Night Shyamalan?

Após o grande sucesso de Sexto Sentido e boa recepção do merecedor mas não tão aclamado Corpo Fechado, diversos críticos veem um claro declínio na carreira do diretor, uns notando a decadência após os filmes “Fim dos Tempos” e “A Dama da Água” e outros mais maldosos (como eu) vendo problemas já em “Sinais” e “A Vila”, o diretor antes famoso por seus grandes plot twists, acabou se tornando previsível e com narrativas desinteressantes.

 

Felizmente Fragmentado trás um ótimo retorno que, ainda não a altura dos primeiros filmes, traz um empolgante suspense. Com atuações memoráveis de James McAvoy fazendo diversas personalidades e a jovem Anya Taylor‑Joy que vem fazendo nome no terror por estrelar “A Bruxa” e “Morgan” (ambos de 2016) o filme se vende já pelos personagens principais.

 

Porém, o filme gerou um debate sobre o quão ético é o uso do Transtorno de Identidade para criar o papel de um vilão, e se filmes de terror deveriam continuar usando esse método. Há algum limite para esse tipo de abordagem?

 

Liberdade de expressão

Antes de mais nada, é preciso entender que o cinema, como uma expressão artística e uma mídia narrativa, precisa ter como fundamento a liberdade de expressão para que a criatividade possa ser exercida livremente. Implicar censura e proibição em narrativas por quaisquer motivos que sejam, acabam por reduzir o potencial estético das obras.

 

Ainda sim, é necessário entender a influência do discurso de uma obra na sociedade e como ela influencia o meio social. Aliado ao ressentimento do sul americano com a derrota  na guerra civil, o sucesso de “O Nascimento de uma Nação” contribuiu para o nascimento da Ku Klux Klan e a revigoração do racismo nacionalista americano.

 

Porém uma proibição de tais obras apenas geram um renovado interesse por um falso aspecto contestador e transgressor de uma ordem aparente. Tais obras têm de ser sim permitidas, porém desmascaradas pelos seus críticos e expostas pela mensagem cruel ou distorcida que passam. Para averiguar a seriedade com que o filme trata a doença, é necessário uma análise da própria.

 

Transtorno Dissociativo de Identidade, um Diagnóstico

Após ser obrigado a lidar com algum trauma psicológico, algumas pessoas “disassociam” e formam novas personalidades para poderem se desligar momentaneamente do corpo. Ainda um diagnóstico difícil pela falta de pesquisa e sem a descoberta de uma cura até o momento, o TDI é tratado em terapias, sendo apenas os sintomas associados a doença (como depressão) tratados com remédios.

 

Apesar do que foi mostrado no filme e do que é construído no imaginário popular, pessoas com TDI não demonstram personalidades agressivas, sendo geralmente pessoas mais frágeis e assustadas devido ao trauma. As personalidades não retém memória uma da outra. E como esses elementos são tratados no filme?

 

Fragmentado, um relato factível sobre TDI?

Em nenhum momento do longa o filme tenta se passar como factível ou baseado na realidade. Apesar de vários elementos da doença serem bastante destoantes do filme, a narrativa progressivamente ruma a fantasia e ficção científica entrando no mundo de super heróis “semi-realistas” já estabelecido por Corpo Fechado.

Dessa forma, toda a narrativa é trabalhada sobre hipóteses científicas que naturalmente se distanciam da realidade, algo próprio do gênero. E SE uma pessoa que sofre de TDI, possa ganhar super poderes? E SE ela desenvolvesse personalidades agressivas? É esse tipo de questão que o filme tenta propor.

 

Ainda sim, o filme pode sim gerar uma noção negativa do público comum as pessoas que sofrem de TDI, e é esse o papel dos críticos de chamarem a atenção que o longa é um trabalho de ficção, não um documentário sobre a doença. Também é necessário que os divulgadores científicos da psiquiatria tornem popular os métodos de diagnóstico e tratamento da TDI. Porém o histórico de exploração de patologias em filmes de horror existe com alguma frequência.

 

Um histórico de patologias em filmes de terror

Fragmentado de longe não é o primeiro filme a usar uma doença psicológica como motor da trama. Um trope muito comum em narrativas de terror, ter um protagonista ou antagonista com algum transtorno psíquico é quase uma regra dentro do gênero “terror psicológico”. A crueldade e indiferença do personagem Dr. Hannibal Lecter de “O Silêncio dos Inocentes” é o clássico caso do psicopata frio e desapegado de emoções que influenciou tantos personagens (como a série Dexter).

 

No terceiro filme da série chamada “Dragão Vermelho” temos também um antagonista com TDI, mas com apenas duas personalidades (um histórico que remete ao livro O Médico e o Monstro). Em “Alucinações do Passado”, temos um protagonista que sofre de stress pós traumático, lutando para saber o que é real ou fantasioso em sua própria vida.

 

Fragmentado se situa meio que no meio disso tudo. Trata com mais respeito a doença e consegue ser menos sensacionalista do que obras no passado foram (ao tratar todo o caso como uma dualidade de bem e mal), porém ainda sim usa esses elementos quando convém a narrativa.

 

Qual sua opinião, acha que a abordagem foi desrespeitosa? Acha que o filme, como obra fictícia, alcançou seus objetivos como obra narrativa? Não esqueça de comentar!

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