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Grafite e pichação podem ser considerados arte?

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Um debate de certa forma já antigo, toma força de novo na capital de São Paulo devido a uma nova empreitada da prefeitura contra grafiteiros e pixadores em favor da moral e estética urbana. As coisas ficam mais interessantes quando se adiciona que o MASP, museu conceituado paulistano, planeja uma exposição de Jean-Michel Basquiat, grafiteiro mundialmente conhecido.

Grafite e piche, são de fato arte? Embarque comigo nessa pequena análise genealógica sobre os conceitos de arte e cultura, bem como uma leitura histórica da pixação e grafite como mídia.

Arte e cultura, uma definição atual de Arte

Dois conceitos usados a exaustão e quase sempre sem a devida contextualização. Iniciando-se pelo termo menos espinhoso, o que de fato é arte? O que faz uma obra ser considerada ou não uma obra de arte? E quanto a um movimento artístico inteiro, uma nova mídia, uma nova técnica, quem pode definir com certeza absoluta, o que é arte?

Como todos os termos mais amplos, não há um consenso definitivo. Acompanhando a definição do livro “O que é Arte” de Jorge Coli, podemos definir com certa precisão que “arte” é toda a obra feita para aspirar uma potencialidade estética. Sendo a efetividade e impacto dessa obra em cumprir esse dever, sua efetividade como obra.

Agora, quem ou o que tem a capacidade para definir quão bem uma obra cumpre suas aspirações estéticas e causa um impacto visual efetivo na sociedade que a cerca? Essa ideia acompanha também uma definição vaga do termo “cultura”.

Uma definição atual de Cultura

Acompanhando ainda o livro de Coli, há a definição de cultura não como o aperfeiçoamento técnico de um indivíduo ou de uma sociedade. Mas sim como um conjunto de costumes, instituições e comportamento de um grupo social específico. Esse termo de cultura está mais ligado ao material de estudo da antropologia, do que um valor moral atribuído arbitrariamente.

É nesse contexto que se diz que pichações, bailes funk e outros comportamentos sociais específicos são considerados “expressões culturais”. Não porque são atividades lúdicas e artísticas de alto grau estético, mas sim porque são uma expressão social de um grupo específico com suas próprias regras e costumes (a moralidade disso, é um julgamento de valor individual).

Porém, ainda cabe debater se essas obras isoladas, tanto a pixação como o grafite, são em si, obras de arte. Para isso, é necessário antes desmontar a ideia de que a arte tem um lugar para ser executada. Que é apenas entre as paredes de um museu que o status de arte é garantido, e para isso, é preciso uma crítica a “arte institucionalizada”.

Uma crítica a arte institucional

Com uma história que data desde o final da revolução francesa no final do século 18. As obras de arte que eram propriedade da realeza e eram ostentadas nos grandes palácios, foram apropriadas e enviadas a prédios públicos para serem exibidas para a classe burguesa fora do círculo da nobreza (camponeses ainda não eram bem vindos).

Toda essa apropriação e redirecionamento da arte, do palácio para o museu, foi um ato simbólico de inversão do poder, onde agora a burguesia se levantava como classe dominante enquanto a nobreza monárquica era desapropriada de seus bens.

Com o tempo, a institucionalização da arte enrijeceu junto com os teóricos e curadores (aqueles que cuidam das exposições), tornando a instituição da arte, um passaporte definitivo ao “mundo da grande arte” em contraponto a produção cultural inferior, popular, “camponesa” que não era permitida entrar.

Porém atualmente, a arte tem um papel mais dinâmico devido a uma lenta reavaliação das suas estruturas. Hoje há a possibilidade da arte fora do museu e em mídias muito mais recentes e dinâmicas do que as do passado, como o cinema, televisão e videogame. Mas ainda hoje, a institucionalização da arte ainda tem um grande peso para a maioria das pessoas.

Para debatermos se a pixação e o grafite tem espaço dentre essas expressões artísticas da modernidade e pós-modernidade, é necessário uma pequena análise genealógica de ambas mídias, e entendermos quais são suas funções sociais como obra de expressão.

Uma breve história da pixação

De certa forma, desde o nascimento da humanidade temos pessoas riscando paredes. Inicialmente como uma tentativa de retratar o cotidiano numa expressão anterior ao letramento.

É importante ressaltar que a diferenciação entre grafite e piche existem apenas no Brasil. Sendo as escritas de gangues e assinaturas das pessoas, conhecidas como “tag”, sendo esse tag, parte da expressão geral chamada “grafitti”.

Há registros de escritas em murais em diversas civilizações antigas como o Egito, Grécia e Roma clássica. O maior registro são murais de Pompéia, que foram preservados como tudo na cidade, devido a uma erupção vulcânica. A pixação como marcação de território e expressão de ideologia foi utilizada até mesmo por padres durante a idade média, que atacava monastérios e igrejas contrários a sua ideologia.

grafite em pompéia
Grafite preservado da cidade romana de Pompéia

O piche hoje

O “renascimento” por assim dizer da pixação como expressão de descontamento político foi muito comum nos movimentos sociais do mundo inteiro durante os anos 60, como o Maio de 68 na França, protestos contra a ditadura militar no Brasil e a contracultura americana da década de 60, existindo de certa forma até hoje.

Como demarcação de gangues a expressão, também ocorreu ao mesmo tempo em vários lugares diferentes. Como a guerra entre os Crips e os Bloods nos EUA e os anos 80 no Brasil. Nesses casos ocorreu até uma reinvenção do alfabeto com linhas mais retas, para facilitar a rápida aplicação da mensagem, se assemelhando até aos algoritmos rúnicos, feitos em linhas retas por serem mais fáceis de se entalhar em madeiras e pedras.

pixação e alfabeto rúnico
Pichação em comparação com o alfabeto rúnico

Uma breve história do grafite

Apesar de ser literalmente desenhos de figuras em uma parede. As pinturas rupestres estão mais ligadas a história da pintura em afresco do que a do grafitti. Porém as pinturas românicas do cristianismo primitivo (colocado na ilegalidade pelo então paganismo do Império Romano, anterior ao século 4), apresentam um caráter intrinsecamente contraventor e rebelde.

arte românica
Demonstrativo de arte românica

Ainda sim, pouco temos de exemplos do que chamamos de grafite (e lá fora, de grafffiti art) no decorrer da história. Sua expressão da forma como conhecemos hoje, é uma evolução técnica do piche. E representa uma resposta cultural a arquitetura brutalista moderna, que enche a cidade de padrões monocromáticos de grandes estruturas de concreto.

A luta do grafite contra a arquitetura brutalista

Mais comum na Europa e no Brasil da metade final do século XX, a arquitetura brutalista é uma radicalização de expressões arquitetônicas modernas como o Bauhaus e o Construtivismo (não confundir com a expressão construtivista russa no design) onde se privilegia a funcionalidade e a eficiência do edifício perante a estética harmoniosa da arquitetura.

bauhaus e construtivismo
Bauhaus a esquerda e Construtivismo a direita

O resultado é claro, são grandes estruturas de concreto cinzas que, sendo hoje consenso quase natural, trazem desânimo e quase repulsa pela falta de expressão. Esse quadrante cinza é o mural perfeito para grandes obras coloridas dos grafiteiros. Por isso, nada tão simbólico quanto ter o maior museu ao céu aberto da América Latina, ser nos murais das estações de metrô entre Carandiru e Tietê, famosas representações do brutalismo em São Paulo.

mirante do vale estação armenia brutalismo
Mirante do Vale e Estação Armênia, ambos em SP

A institucionalização da arte, um problema?

Para aqueles que precisam de uma confirmação institucional da arte, talvez poucos exemplos sejam mais diretos do que esse, literalmente um museu feito apenas de grafites no coração da cidade. Mas alguns questionamentos podem começar a pipocar. O que separa artisticamente os grafites da Avenida Cruzeiro do Sul com os da 23 de Maio (fazendo com que um possa ser removido pela prefeitura e o outro não) senão apenas o status institucional?

A situação fica ainda mais complicada quando João Dória Jr., o atual prefeito de São Paulo, insiste na cruzada contra o grafite enquanto o MASP (uma entidade privada) está prestes a organizar uma exposição de Jean-Michel Basquiat, grafiteiro mundialmente famoso.

obra de Jean-Michel Basquiat
Obra de Jean-Michael Basquiat

Conclusão

Fazendo uma revisão histórica dos termos e das expressões, minha leitura dos acontecimentos é que o piche, apesar de ser uma expressão cultural genuína de subversão e/ou demarcação de território (sendo ela bela ou não, um julgamento de valor individual), não é feita sob o princípio de alcançar status estético de elevação da obra, por isso não deveria ser considerada uma obra de arte.

Já o grafite (conhecido lá fora como graffiti art), por ser uma expressão que pretende alcançar um caráter estético e tem uma postura de vanguarda conflituosa entre as artes visuais plásticas, contra a rigidez da arquitetura moderna, alcançando um caráter estético, diverso e dinâmico.

Caso deseje ler a obra “O Que é Arte” de Jorge Coli e desenvolver seu próprio raciocínio sobre a questão, basta clicar no link abaixo:
https://designdeinterioresinap.files.wordpress.com/2011/02/jorge-coli-o-que-c3a9-arte.pdf

Muitas das informações acerca do grafite e pichação eu tirei dessa dissertação de mestrado chamada “Pichação carioca: etnografia e uma proposta de entendimento” de David Costa Aguiar de Souza. Caso queira ler, acessar o link abaixo:
http://www.comunidadesegura.org.br/files/pichacao%20carioca.pdf

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