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História e decadência da mídia impressa

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Começo da semana eu fiz um texto falando sobre alguns problemas vitais que a mídia digital está passando, principalmente no que tange a ética jornalística. Eu levantei dois pontos na introdução daquele texto que não foram devidamente explorados que são 1) a decadência da mídia impressa e televisiva e 2) a falta de ética e o conservadorismo da mídia devido a sua centralidade. Hoje pretendo desenvolver melhor essa ideia.

 

Esses tipos de mídias estão realmente morrendo? Há de fato essa centralização da informação que dificulta sua adaptação ao mundo mais dinâmico e moderno? Há algum sinal claro dessa mudança que aparenta ser irreversível? São os tipos de perguntas que quero responder aqui.

 

Uma breve história da mídia impressa

A capacidade de circulação de informação está intimamente relacionada com a tecnologia e acessibilidade. É com a invenção da imprensa de Gutemberg, durante o renascimento no século XV que a comunicação impressa ganharia um grande desenvolvimento e força, mas que ainda demoraria alguns séculos para melhor se desenvolver.

 

Em seu período inicial, pode se dizer que o papel da mídia impressa foi bastante reacionário por ter servido de voz a perseguição às bruxas do período entre os séculos XV e XVII, vale lembrar que o livro “O Martelo das Bruxas” foi o mais vendido depois da bíblia nesse período (como já disse no meu texto “As Bruxas como medo a emancipação feminina”).

 

Porém seria igualmente irresponsável não reconhecer o caráter revolucionário da imprensa no seu papel fundamental em libelos francês na divulgação do iluminismo e a destituição do Antigo Regime na França, bem como a propagação dos ideais republicanos na independência dos EUA. Não à toa, países onde uma parcela maior da população tinha acesso a leitura e criação de textos.

 

Por isso é importante aqui ressaltar que a mídia impressa não tem um caráter político intrínseco, mas sim, serve apenas a dar voz aqueles que estão publicando. Seja uma elite centralizada conservadora, seja uma pluralidade de ideias progressistas descentralizadas.

 

Mídia impressa no Brasil

É muito simbólico para entendermos a liberdade de imprensa no Brasil percebermos que toda publicação da imprensa na colônia foi proibida até a vinda da família real ao Brasil. Sendo então permitida apenas a publicação oficial real na forma da Gazeta do Rio de Janeiro (órgão oficial do governo português) e que passava por uma rigorosa censura por uma comissão estatal que chegava a destruir tipografias que atentassem contra a ordem social.

 

A liberdade de imprensa foi assegurada na constituição de 1824, dois anos após a independência brasileira. Mas que na prática mostrava ineficiente, visto o assassinato de Líbero Badaró, jornalista liberal  que publicava a favor da república e contra o governo imperial brasileiro, a mando do ouvidor Cândido Japiaçu autoridade máxima judiciária de São Paulo.

 

Estabelecimento da mídia impressa e o nascimento da mídia televisiva

Os grandes barões da comunicação que conhecemos hoje (Estadão, Globo, Folha) foram formados durante o final do século XIX e começo do século XX. Com seu estabelecimento, seu controle foi expandido para o rádio durante aos anos 30, e para a televisão nas décadas de 50, 60 e 70.

 

Vale ressaltar que o rádio e a televisão são expansões da mídia impressa, e não concorrentes diretas, sendo a TV Tupi parte do Diários Associados e a Rede Globo parte do Jornal O Globo. Portanto não vou falar mais detalhadamente disso.

A decadência

Existem algumas certezas quando estudamos História. uma delas é que todo império chega ao seu fim. E é isso justamente o que está acontecendo com a mídia impressa (e por consequência, a mídia televisiva). O caráter descentralizado e dinâmico das mídias digitais que, considerando as proporções, pode ser comparado com a dinamicidade dos libelos e pequenos impressos dos séculos XVI e XVII estão se sobrepondo a mídia institucionalizada.

 

Em suas tentativas de se manter atual, temos recentemente diversos episódios de constrangimento da grande mídia a abordar temas mais modernos, enumerei alguns casos em especial aqui.

 

Caso da cosplayer e Pânico

O caso já tem algum tempo, mas é sempre bom relembrar dos pontos mais baixos desse tipo de cobertura da imprensa. Com a intenção de humilhar e constranger os participantes do evento, uma equipe do programa O Pânico foi a um evento geek e, entre diversas atitudes bizarras, lambeu uma das cosplayers que estavam no evento.

 

Em meio a uma já grande polêmica de assédio que as praticantes de cosplayer já sofrem constantemente, o programa faz isso como de forma a naturalizar o assédio e agressão, numa atitude incrivelmente machista e despreparada. A resposta do programa frente às críticas naturais que recebeu? Nenhuma.

 

Não houve um pedido de desculpas formal não só a garota assediada, mas a todas as pessoas que praticam essa atividade. De fato rolou até uma tentativa de piada sobre o assunto, como se o público estivesse exagerando. Mostrando então a falta de tato para lidar com esse problema.

 

Oscar na Globo

Ano passado tivemos o caso cômico dos comentários da Glória Pires no Oscar, visivelmente desinteressada no evento e deixando claro todos os sinais de que estava ali contra sua vontade. suas respostas são relembradas até hoje pelo uso de memes, de tão bizarro foi essa experiência. Mas, o que exatamente mantinha Glória Pires presa a essa situação tão incômoda para ela e seus espectadores?

 

É caso de especulação que teríamos aí, uma grande dificuldade de confirmar sua veracidade, mas muitos especularam que foi uma exigência do alto escalão da Globo que colocou a atriz lá para a vender sua imagem e manter sua relevância com o grande público devido aos diversos trabalhos que a atriz tem com o canal e pelo filme que iria estrear dois meses após a cerimônia, que tem ela como principal. Se é verdade, não temos como saber.

 

Mas é muito triste ver que, por alguém e por algum motivo, a decisão de manter uma comentarista desinteressada numa cerimônia tão importante para a sétima arte foi tomada por alguém e religiosamente acatada por todos, e todos nós saímos perdendo com isso.

 

Sensacionalismo e violência dos games

Vamos ser sinceros, polêmica chama audiência. Jornalismo policial não passa o tempo mostrando assassinatos e fazendo cobertura de crimes hediondos por dedicação a informação. Sensacionalismo é quase a pauta fundadora do jornalismo policial e atacar os jogos digitais é basicamente o caminho mais fácil.

 

Sempre que há algum caso de violência onde o agressor tem alguma relação com videogames, é declaro que os jogos digitais são os únicos culpados do caso, desviando a culpa do indivíduo que praticou tais atos.

 

Assim como as demais mídias narrativas da atualidade (como por exemplo o cinema) tem em seus maiores sucesso obras com violência, jogos de ação/aventura também fazem um grande sucesso. Porém nada leva a acreditar que essa mídia seja mais influente na violência social do que qualquer outra forma de arte e entretenimento que tenha o mesmo tema.

 

A tentativa de se manter relevante

Qual o motivo então dessa mídia que representou o jornalismo por séculos ter tão pouca afinidade de se inteirar com as mudanças de comportamento na cultura popular? A verdade é que a mídia impressa está morrendo, e sua forma agressiva de tratar esses assuntos é para se manter relevante.

 

Assim como a mídia digital vive de views e clique, a mídia impressa vive de audiência. E não há diferença em atrair boa ou má publicidade, se as pessoas estão dispostas a assistir, vale a pena todo o esforço.

 

Há o caso por exemplo do apresentador Jimmy Kimmel (a versão chata do Jimmy Fallon) que justamente por viver a sombra do seu xará mais talentoso, fez um programa especialmente para tirar sarro do modelo “Lets Play”, que é basicamente o conteúdo mais popular no youtube. Kimmel ao menos teve a decência de pedir desculpas.

 

Conclusão

A mídia impressa está ruindo num processo irreversível. Parte dela ainda luta para fazer a transição pro digital, parte irá afundar e fazer parte da história. A parte mais importante que temos a aprender disso é que quem fortalece a mídia somos nós, leitores. É dos nossos clicks e views que esse tipo de conteúdo sobrevive.

 

Tendo em consideração esse nosso poder, cabe a nós darmos valor apenas a conteúdo relevante. Deixando enfim aqueles que não sabem levar o trabalho de jornalismo a sério, caírem no esquecimento.

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1 COMENTÁRIO

  1. Não assisto tv há muitos anos, portanto é indiferente quem a Globo contrata ou deixa de contratar para uma tarefa como comentar o Oscar; ainda assim, as críticas à Gloria Pires foram tão veementes que resolvi ler um pouco sobre o caso, na época. É possível que vc tenha tomado conhecimento, mas ela própria discutiu alguns dos pontos mencionados em seu texto em um vídeo, que pode ser acessado aqui (http://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2016/02/10000624-gloria-pires-responde-polemica-sobre-seus-comentarios-no-oscar.shtml).

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