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Estamos numa ótima época para desenhos

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“Os desenhos da minha época eram muito melhores” essa é uma frase que talvez possa ser associada com a última geração, mas na verdade é proferida desde, bem… a criação dos desenhos.

 

Toda a geração acha que os desenhos com os quais cresceram e moldaram sua infância são os melhores e o que está vindo de novo sempre é pior. Porém, será que analisando com algum cuidado e deixando a nostalgia de lado, poderíamos confessar que os desenhos atuais são na verdade melhores do que os feitos no passado?

 

Clássicos serão sempre clássicos

Uma coisa importante para começar a analisar essa discussão é compreender o que faz algo virar um clássico é justamente a ideia da capacidade da obra de sobreviver ao tempo. Saber que mesmo após gerações diferentes, mesmo após o nosso próprio estado mental e personalidade terem se desenvolvido, a obra original continua a dialogar conosco.

 

Claro que monstros como Pica Pau, Looney Tunes  e Mickey são excelentes obras, justamente por terem sobrevivido durante tantos anos e se afirmado como algo além de seu tempo. E isso em grande parte se deve a gênios como Chuck Jones que contribuíram para maravilhosas histórias.

 

O que peço aqui é para darmos chances ao novo, para redescobrirmos e aceitarmos novas formas que, com seu devido tempo, se provarão como grandes clássicos. Porém, para explicar o que há de tão maravilhoso hoje em dia, devo fazer uma pequena análise do passado.

 

Uma breve história dos desenhos

Desenhos animados são uma mídia com quase um século de história e seria uma ilusão acreditar que eu possa contar sua história em alguns parágrafos, mas prometo fazer uma resumida honesta que dê para pelo menos contextualizar o momento que vivemos atualmente na história.

 

Até os anos 40 não existia televisão. Os desenhos eram passados no cinema onde, após pagar uma entrada, os espectadores poderiam ficar horas assistindo a pequenos curtas diversos. Isso é bem retratado no filme “Uma Cilada Para Roger Rabbit” (aquele filme que fala sobre racismo). Nesse período os desenhos eram bem experimentais indo numa alta gama de conotações sexuais , uso de drogas (como em Betty Boop) racismo e violência

 

Com a popularização das televisões nos EUA, os desenhos foram rapidamente ficando mais amigáveis. Personagens que eram violentos e malucos como o Pica-Pau e o Patolino ficaram com personalidades mais aceitáveis e as histórias tiveram uma estrutura narrativa mais interessante. Essa transformação ocorreu bastante nos anos 40 e 60.

Durante os anos 80 houve um grande boom do mercado de brinquedos e muitos dos desenhos serviam apenas de suporte para esse comércio, chegando a lançar primeiro o brinquedo nas lojas para depois inventar uma história com o tema, como Tartarugas Ninjas, ou de linhas de brinquedos que viraram animações, como My Little Pony e Transformers.

 

Finalmente nos anos 90, tivemos um retorno dos desenhos mais experimentais, violentos e insanos, que de novo tentavam empurrar os limites do que era possível fazer em um desenho. Nasceram animações mais sombrias como Batman: Série Animada e Gárgulas, e outras completamente insanas como Ren & Stimpy e Animaniacs.

 

Procurando um balanço

Os desenhos de hoje em dia sabem lidar perfeitamente bem com tudo o que já ocorreu no passado. Conseguem construir histórias sentimentais e com um grande peso narrativo no mesmo passo que podem tirar as ideias mais psicodélicas e colocarem em prática.

 

Talvez o melhor exemplo seja Apenas um Show, desenho que circula entre Mordecai e Rigby, dois amigos que trabalham em um parque  junto com uma equipe diversificada de personagens. Os primeiros minutos de cada episódio são completamente normais e giram em torno de problemas reais, geralmente envolvendo falta de dinheiro dos dois amigos. Mas tudo sempre desanda rapidamente na metade final de cada episódio.

 

Itens mágicos que podem fazer o impossível, monstros de uma dimensão paralela, assombrações de um salão de festas que impedem que novas festas ocorram, pois a última foi a melhor. Tudo parece uma grande viagem de ácido que demora para “bater”, mas quando bate, leva o espectador a um mundo jamais imaginado.

 

Hora da Aventura consegue também trabalhar os elementos psicodélicos com histórias bastante emocionais. Não é necessário muito esforço para perceber que tudo no desenho circula em volta do universo dos RPGs como Dungeons e Dragons, então é bastante comum ver Finn e Jake lutando contra monstros bizarros e explorando masmorras.

 

Porém a série surpreende quando aborda de um jeito bastante real os relacionamentos humanos, como a paixão não correspondida de Finn pela Princesa Jujuba, seu relacionamento conturbado com a Princesa de Fogo, o antigo amor passado de Jujuba com Marceline e o passado trágico de amizade entre o Rei Gelado e Marceline.

 

Para os fãs de mistério e sobrenatural, sem dúvida a melhor recomendação que tenho é Gravity Falls, basicamente um Arquivo X para crianças. Gravity Falls é um desenho sobre dois irmão gêmeos, Dilbert e Mabel, passando férias em Oregon com seu tio-avô Stan, que administra uma armadilha de turista chamada “Cabana do Mistério”.

 

Logo, o casal de irmãos percebem que existe algo de estranho na pequena cidade e, principalmente da parte de Dilbert, tentam desbravar e entender tudo de misterioso que a cidade guarda. Qualquer pessoa que como eu, passava as férias no interior e criava suas próprias histórias enquanto rumava ao desconhecido vai se identificar e crescer um carinho pessoal pelo desenho.

 

Todos os desenhos que citem abordam de uma forma ou outra um certo nível de diversidade, mas sem dúvida o desenho atual que tem representatividade como símbolo principal é Steven Universe. A história gira em torno do protagonista que dá nome a série e as Crystal Gems, um grupo espacial do qual a mãe dele fez parte. Todas as personagens têm não só personalidades bem marcadas, como também tipos físicos e sexualidade diversificada.

 

Talvez a melhor parte do desenho é que ele não usa os temas de diversidade e sexualidade de maneira panfletária, fazendo com que todos seus personagens fluam e se assumam de maneira natural, ao invés de se comportarem como tokens para atender um público alvo. Fazendo assim um ótimo trabalho em apresentar um mundo diverso para crianças pequenas.

 

Por fim, um desenho que apenas recentemente comecei a acompanhar mas já me encantei no primeiro episódio. Ricky e Morty fala das aventuras do cientista Ricky com seu neto Morty através do tempo e espaço. O desenho lida com questões existenciais, usa as vezes de elementos da mitologia de H. P. Lovecraft e basicamente parece um “De Volta para o Futuro” sob efeito de crack. Praticamente uma receita infalível, mas que talvez não seja a melhor escolha para crianças.

 

Conclusão

Existem ainda diversos desenhos que parecem bastante promissores, mas que infelizmente eu ainda não assisti. Alguns como  Avatar: A Lenda de Korra, Bobs Burguer, Gumball e até mesmo My Little Pony parece ter melhorado da armadilha de brinquedos infantis para uma narrativa sincera sobre amizade.

 

O importante é: Vivemos numa época maravilhosa para os desenhos, que aprenderam com acertos e falhas do passado e que sem dúvida, merecem não só a nossa atenção, como servir de entretenimento e engrandecimento pessoal das crianças de hoje em dia.

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