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O poder da zoeira na Escola Brasileira de games

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Jogos americanos são mais violentos, jogos japoneses inspiram a técnica e imersão… qual é o aspecto então que poderia diferenciar os jogos brasileiros? Acompanhe aqui uma pequena definição do que são as “escolas de game” comparando com as escolas de cinema, o que fazem delas únicas, e o que o Brasil tem a oferecer no campo.

O que são exatamente essas “escolas”?

Jogos digitais, como qualquer expressão artística e cultural, tem características únicas conforme as relações socioculturais do local e do momento onde é produzido. Essa caracterização e estilo único na produção da obra conforme o local é chamado de “Escola”. Que dá um tom único a obra mas que não chega exatamente a uniformizá-la com outras da mesma escola.

 

Por exemplo no cinema, as escolas mais famosas são a americana, que abrange tanto a era de ouro de Hollywood, como sua reformulação em “nova hollywood e até mesmo a era dos blockbusters. E a escola francesa, que independente se é da Nouvelle Vague ou não, tem uma percepção de narrativa e fluidez única que a diferencia da escola americana.

 

Isso se repete na Filosofia (escola analítica x escola continentalista) na literatura (escola anglo-americana, continental e latina) e até mesmo na produção de cerveja (escola inglesa, escola belga e escola alemã). Nos games, as diferenças mais marcantes e respectivamente as escolas mais famosas são a Americana e a Japonesa.

 

Escola americana de games x Escola Japonêsa de games

Ambas existem e competem no mercado de games desde o final dos anos 70 e se distinguem até hoje por características típicas. Geralmente, os jogos americanos se destacam mais pela ação e aventura e pela conquista individual enquanto os japoneses por técnica e imersão e trabalho em grupo.

 

Dois gêneros onde as duas escolas se diferenciam bem é o RPG. O RPG japonês é mais focado no sistema de grinding (ficar matar os mesmos bichos durante muito tempo para acumular experiência) e turnos, além de ter uma narrativa densa, em comparação aos RPGs americanos, onde existe mais ação e menos foco narrativo.

 

No cinema podemos também comparar as escolas americana e japonesa pela diferença entre ação e narrativa no gênero “Horror”. Os filmes de horror japoneses tem uma história mais densa e sinistra, como mostrado em filmes como Ringu e Ju-on: O Grito, Enquanto nos filmes americanos de horror o foco está muito mais na ação e no “gore”, como nas franquias Evil Dead e Sexta feira 13.

 

E o Brasil se encaixa exatamente aonde?

O Brasil ainda é um mercado emergente para os jogos digitais. A única grande distribuidora que tivemos foi a Tec Toy e, apesar de ter desenvolvido alguns jogos por si mesma, seu maior papel era traduzir e relançar jogos dos consoles da Sega. E já nesses jogos tem a característica típica que, pelo título do artigo, vocês já devem imaginar do que se trata.

 

Uma de suas conversões mais famosas foram “Chapolim x Drácula: Um duelo assustador”, que é baseado originalmente no jogo relativamente de terror chamado “Ghost House”. Porém o jogo tem um ar muito mais engraçado do que o original ao adaptar o polegar vermelho como protagonista.

 

Outra conversão é a série de jogos da Turma da Mônica baseado na série Wonder Boy, onde também o clima original de fantasia dá lugar a um ambiente mais humorístico. O jogo “Férias Frustradas do Pica-Pau” dessa vez desenvolvido totalmente pela tec toy, aproveita o ambiente da série de desenhos para construir o seu jogo e o faz também focada no humor.

 

Desenvolvedoras indies brasileiras

Porém não só da Tec Toy que depende a produção de games no Brasil. Atualmente vivemos uma grande revolução de desenvolvedoras indie e, nesse mercado, encontramos diversas pequenas empresas brasileiras buscando seu espaço. Apesar de não ser imperativo, diversos desses jogos tem uma coisa em comum, o humor (ou, comumente a “zoeira”) como parte central do gameplay.

 

A maioria desses jogos são casual games feitos por pequenas empresas. Dos mais casuais temos os dois jogos desenvolvidos pela revista Super Interessante que seguem basicamente a mesma ideia, o Filosofighters e o Science Kombat. Jogos de luta onde se confrontam grandes pensadores (no primeiro, da filosofia e no segundo, da ciência) numa batalha entre si até um mestre secreto, tudo regado com muito humor.

 

Ainda no campo casual e adicionando outro tempero bastante brasileiro, o caos político, temos Super Impeachment Rage, um jogo onde até então presidente do brasil tenta fugir do Impeachment, mostrando que o melhor jeito do brasileiro de lidar com assuntos tensos e trágicos e através da piada satírica. O jogo é uma adaptação do Leo’s Red Carpet Rampage.

 

Ainda no campo casual temos o jogo sobre um recente fenômeno na internet brasileira, Carreta Furação: The Legend, uma homenagem ao famoso Trenzinho Carreta Furacão. O jogo foi desenvolvido pelo Laboratório de pós graduação em Jogos Digitais da Universidade Estadual do Amazonas, o jogo é um runner em que o objetivo é desviar dos obstáculos para passar de fase. Com desenho simples e a trilha sonora já famosa pelo trenzinho em vídeos virais no youtube (siga em frente, olhe para o lado).

 

Indo para a iniciativa privada mas se mantendo no ramo indie, temos A Lenda do Herói, do
Estúdio Dumativa. O jogo é inspirado nos Castro Brothers, dois irmãos que fazem paródias musicais, geralmente ligadas a games. O jogo é um típico plataformer clássico sobre um cavaleiro indo resgatar uma princesa, porém a trilha sonora é toda cantada pelos irmãos, de forma a contar e fazer piada do enredo e jogabilidade do jogo numa quebra de quarta parede divertida que lembra muito o filme do Deadpool.

 

O que o futuro nos guarda?

Não é difícil reconhecer que temos um humor meio único e diferente para o padrão mundial e que isso claramente irá influenciar ainda diversos jogos. Se a indústria de games pode ou vai se desenvolver com força no Brasil, ainda não é muito certeza. Varia bastante de como o governo trata, e principalmente, tributa os games aqui, e de quanta força iremos ter para poder vencer a burocracia em cima dessa mídia (não atoa, um dos jogos aqui provém de uma universidade federal).
De qualquer jeito a comédia, ou “a zoeira” é uma assinatura nossa e espero que muitos outros jogos satíricos possam sair. E que finalmente nos destaquemos no mercado mundial de games.

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