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Acertos e Erros da animação de Batman: Piada Mortal

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Alguma coisa estranha está acontecendo com a DC. Por anos ela reinou absoluta nas adaptações animadas de quadrinhos, principalmente em obras do Batman como os  grandes clássicos “Cavaleiro das Trevas” parte 1 e 2, “Ano Um”, “Batman Contra o Capuz Vermelho” e “A Máscara do Fantasma”, então qual foi o problema de adaptar a aclamada graphic novel de Alan Moore, Piada Mortal?

 

Bem, como sempre faço com filmes mais “polêmicos” na crítica, vamos balancear os lados positivos e negativos para tentar chegar em alguma conclusão, como sempre, começando pelos positivos.

 

As dublagens clássicas da série animada

Mark Hamill, famoso pelo papel de Luke Skywalker em Star Wars, brilha mais uma vez ao fazer a voz do personagem. Dublador clássico do Coringa, alguns dizem que o melhor Coringa fora dos quadrinhos. Suas risadas histéricas, seu tom debochado e suas falas mais gritantes e insanas dão o tipo de caracterização e profundidade necessárias para aquele que é considerado um dos maiores vilões dos quadrinhos.

 

A animação ainda trouxe de volta a potente voz de Kevin Conroy para mais uma vez dublar o cavaleiro das trevas. Conroy também está com o personagem desde a série a animada dos anos 90. A surpresa no caso é Tara Strong que vem fazendo alguns trabalhos de dublagem em Batman, mas com a voz de Arlequina, na animação ela faz a voz de Barbara Gordon.

 

Fidelidade

Com exceção do prólogo focado no desenvolvimento da personalidade de Barbara Gordon como Batgirl que completamente inédito (falarei disso mais tarde), toda a parte posterior está bem fiel a história de Alan Moore, os diálogos são quase os mesmos e a as cenas e o andamento da narrativa seguem quase que perfeitamente o quadrinho. Evitando assim que a história tome um rumo diferente das HQs

 

Negativos

Porém claro, a fidelidade e boas dublagens não são tudo o que fazem a animação. Vamos então aos pontos negativos.

 

Animação morta

Eu simplesmente não sei o que aconteceu. Como já disse na chamada do texto, a DC  reina desde os anos 90 com animações expressivas e de qualidade, mas a animação desse filme é simplesmente inexpressiva. Os personagens parecem de madeira, raramente demonstram emoções e tudo é meio gélido e parado.

 

Talvez seja um problema próprio da adaptação entre diferentes mídias, ao adaptar a graphic novel quadro por quadro. A arte sequencial dos quadrinhos é por natureza estática, fazendo a transição entre quadros o seu movimento de cena e as linhas expressivas a impressão de movimento. Ao desenhar os personagens fazendo poses e carões, apesar de fieis aos desenhos de Brian Bolland, perdem movimento e expressão. Fazendo com que a animação pareça mais estática do que deveria.

 

O prólogo da Batgirl

Devido a polêmica capa alternativa de Rafael Albuquerque mostrando a personagem com o Coringa, e pela história ser certamente curta demais para uma adaptação de 70 minutos, o roteirista Brian Azzarello decidiu adicionar um pequeno prólogo para a história.

 

A ideia seria dar mais peso narrativo a personagem de Barbara Gordon, fazendo assim sua cena onde ela é alvejada por Coringa ter mais peso e sua recuperação mais heroica, além de tentar construir uma imagem de heroína independente e forte para a Batgirl. Porém, o filme não consegue atingir nada disso.

 

Barbara Gordon é retratada nesse prólogo como uma adolescente mimada e descontrolada que toma atitudes precipitadas baseadas na emoção e que a colocam em situações perigosas, sendo até salva por Batman em uma das vezes. Tornando-a uma personagem dependente do protagonista masculino.

 

O prólogo de Barbara é totalmente desconexo com o resto da história, foi usado um vilão genérico e descartável que nunca mais é mencionado e que, mesmo genérico consegue dobrar o espírito de Barbara. A ideia de um prólogo em especial para a personagem é uma ótima possibilidade para construção da personalidade dela, e não faltam bons exemplos disso nas edições novas que estão saindo da personagem em sua edição solo. Porém essa chance é totalmente desperdiçada em um roteiro perdido.

 

O relacionamento de Batgirl com Batman

Eu já reclamei disso no meu texto sobre as adaptações de Silent Hill pra cinema, principalmente na hora de criticar o segundo filme que tem Heather Mason como protagonista. Mas parece que é impossível fazer um filme sobre uma protagonista mulher sem que ela tenha um interesse romântico com o personagem masculino principal.

 

Nesse prólogo da Barbara, foi adicionado uma camada de romance entre ela e Batman nos moldes do trope da aluna que se apaixona pelo professor, muito comum em roteiros de filmes pornô, inclusive levando a tão comentada cena onde os dois fazem sexo.

 

A maior justificativa de alguns fãs é que o relacionamento breve dos dois foi canônico tanto na animação do Batman do Futuro (que em tese é uma sequência da série animada) como na adaptação dos quadrinhos que dariam sequência no universo da série animada. Mas não é porque uma decisão errada é canônica na outra mídia que é uma boa ideia adaptá-la nessa obra.

 

Esse é o tipo de escolha narrativa que deveria deixar ser esquecida. Pois diminui a personalidade de Barbara como combatente do crime independente como mais um par romântico do herói principal.

 

Falha em passar a essência da história

A essência de Piada Mortal é colocar em uma análise fria  a maior rivalidade da DC Comics, que representa entre outras coisas a dicotomia entre a ordem e o caos, ou a justiça implacável de Batman com a perversidade diabólica de Coringa, que as duas partes desconexas da história na animação não dialogam para construir.

 

De fato, mostrar um Batman que se relaciona com Batgirl, dando risada com o vilão que acabou de aleijá-la para a vida (ainda que o final, se houve a morte ou não, continue aberto) deixa tudo completamente perdido e bizarro.

 

E o final não tem a fluidez necessária para reacender o debate se Batman mata ou não o Coringa que eu também comentei em outro texto. Uma cena tão emblemática e aclamada nas HQs ficou simplesmente estranha e perdida no final da animação.

 

Conclusão

Apesar de seguir diretamente a história das HQs, adicionar um prólogo sobre uma personagem que até então era secundária na história e trazer um time letra A para a dublagem, a animação falha em ser uma obra que se afirma sozinha, com uma animação truncada e inexpressiva e que contém duas partes narrativas que não se dialogam entre si, além de fazer um desserviço para a personagem que eles estavam tentando resgatar.

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