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Contexto social e político de Stranger Things

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Série que simplesmente tomou a internet recentemente misturando referências a diversos clássicos dos anos 70, 80 e 90 como Conta Comigo e em maior grau as obras de Steven Spielberg como ET, o Extraterrestre, Poltergeist e até mesmo Tubarão e Parque dos Dinossauros. Além é claro de uma brilhante trilha sonora tematizada no período.

 

Porém é claro há um contexto de crítica social e principalmente política que apesar de não ser o foco da série, faz uma subnarrativa bem interessante e apesar de não ter tanto destaque, merece alguma atenção.

 

Stranger Things, sucesso imediato

Não é difícil entender o sucesso tão repentino de Stranger Things. A série não é apenas uma grande costura sem nexo de referências aos anos 80, pois consegue estabelecer diversos gêneros e artifícios narrativos numa história fechada e muito bem executada. Cada grupo de personagens tem seu arco bem desenvolvido com resoluções surpreendentes e que dialogam bem uns com os outros, combinando histórias diferentes mas que conseguem formar uma grande narrativa coesa.

 

A trilha sonora também é um espetáculo a parte e as vezes até faz parte integrante da narrativa, como a comunicação com o personagem Will Byers através da música “Should i Stay or Should i Go” da banda The Clash. Que também é usado como desenvolvimento da amizade entre os irmãos Byers. Mas claro, o foco desse texto é como o filme retrata a relação social e política da época, então vamos a ele.

 

Guerra Fria

O filme se passa em 1983, nos anos finais da guerra fria que terminaria definitivamente em 1989 com a queda do Muro de Berlim, e apesar de não ter o mesmo peso do medo atômico dos anos 50 e 60, o período foi marcado por uma incrível tensão entre os dois polos econômicos mundiais que afetariam a vida comum das pessoas, mesmo numa cidade tão afastada como a retratada na série.

 

A simples ideia de você não colaborar com o governo pode levar a pessoa ser taxada de “comunista” e o clima de guerra e violência apenas deu vasão para atitudes extrapoladas do governo e programas governamentais autoritários, e é esse o objetivo desse texto.

 

MK ULTRA e programas governamentais secretos

E porque não começar justamente com o que de fato aconteceu no mundo real. MK Ultra foi um programa desenvolvido pela CIA em 1953, durante os primeiros anos de guerra fria, que fazia experimentos com drogas psicoativas como o LSD em humanos para desenvolver habilidades ou usar como método de tortura e interrogação.

 

Os experimentos foram descobertos após uma investigação do senado promovido pelo senador democrata Frank Church e ficou conhecido como “comissão church”. O principal responsável pelos experimentos foi Ewen Cameron, psiquiatra escocês naturalizado americano e que presidiu a Associação Mundial de Psiquiatria em 1961.

 

Na série, o experimento foi realizado na mãe de 11 com o objetivo habilitar poderes psíquicos nos seres humanos e que somente surtiram efeito em sua filha. Para dar maior força aos seus poderes a garota era colocada num tanque de privação de sentidos, que também tem base nos experimentos de Cameron, mas no caso dele foram desenvolvidos para tortura psicológica.

 

Melhores desenvolvidos posteriormente por Donald Hebb e que foram amplamente usados na prisão de Guantanamo. Hebb fazia os experimentos para arrancar confissões dos prisioneiros, segundo Hebb, “de forma científica”. Ao invés da câmera de isolação com água, porém, os prisioneiros eram colocados sentados em posições desconfortantes por horas e com óculos e fones que tiram a percepção sensorial.

 

Instabilidade pós-nixon e os anos de Reagan.

Talvez voltando com alguma força recentemente, mas muito mais comum nos anos 70 e 80. O governo americano é meio que o “grande vilão” da série (além da ameaça mais palpável do monstro). Esse elemento narrativo era bem comum em filmes mais antigos devido a turbulência política que os EUA estavam passando.

 

Pelo enrijecimento da guerra fria, o caso Watergate (onde o presidente Nixon renunciou após comprovado envolvimento de espionagem do Partido Democrata) e as investigações sobre o governo americano que trouxeram a tona a constante violação dos direitos civis e gastos com programas secretos governamentais (como o já citado MKULTRA), havia uma enorme insatisfação pública com o governo.

 

Em uma das maiores inspirações para a série, ET o Extraterrestre de Spielberg, o tema central é o trabalho secreto do governo na observação e pesquisa de extraterrestres e de como o governo literalmente atiraria em crianças para manter tudo em segredo (ainda que o diretor tenha removido as armas em uma edição remasterizada).

 

Essa insatisfação também refletiu no governo Reagan (presidente que chegou a ser baleado em uma campanha de reeleição) e sua reforma econômica ortodoxa. A série faz uma breve menção disso quando a mãe de Will, Joyce Breyes, tem de negociar seu salário e suas compras no lugar onde trabalha à 10 anos.

 

Conclusão

Há muito do que se falar da série e todo o hype que ela criou foi realmente merecido. Desde sua trilha sonora impecável, as intermináveis referências aos clássicos e, claro, sua ambientação política e social feita com cuidado e atenção. Stranger Things foi a grande surpresa do ano e esse crítico não pode fazer nada a não ser esperar pela segunda temporada.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito interessante. Apesar de falar pouco das menções aos soviéticos como algo mau etc e tb os erros de português (conserta ai. Seu blog é bom mas isso prejudica)

    • A vilanização dos soviéticos eu deixei implícita no trecho sobre a guerra fria. É que abordei esse tema tantas vezes aqui que acabei deixando mais resumido. ahahah

      E esse foi o caso do texto que passou por uma revisão breve, na pressa. Espero ter ajeitado os erros.

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