Início Análises e Teorias O Horror como temática em jogos de Ação e Aventura (1982-1992)

O Horror como temática em jogos de Ação e Aventura (1982-1992)

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É possível adicionar diversos elementos do horror em uma obra narrativa e ainda sim fazer com que a experiência dela seja totalmente focada na ação ou aventura, fazendo com que o gênero seja outro que não o terror. Isso é especialmente comum em jogos digitais, principalmente os de ação, pois a temática do horror oferece um inúmero arsenal de monstros a serem derrotados.

 

A diferença marcante de jogos diversos que tem o horror como tema para os que o adicionam em seu gameplay é que ao invés de nos sentirmos fracos e vulneráveis ao perigo eminente, somos empoderados com armas e objetos que fazem com que a derrota do monstro seja possível. Vamos a alguns exemplos desses jogos.

 

Plataformers
Monster Bash foi um jogo da Sega lançado para os fliperamas em 1982 e depois refeito para Master System sob o nome de Ghost House (mas nós brasileiros acabamos conhecendo pela versão da Tec Toy chamada Chapolim x Drácula: Um duelo assustador. O jogo consistia em controlar um jogador em um labirinto enfrentando diversos monstros típicos como vampiros e múmias.

 

Ele se inspira bastante na fórmula dos mazes que comentei no outro texto, mas se aproxima mais do que viriam a ser os plataformers, como por exemplo Ghost n Goblins de 1985 para fliperamas, usa a base da literatura medieval fantástica para compor sua mitologia, com um cavaleiro chamado Sir Arthur de protagonista responsável de enfrentar ordas de fantasmas e goblins (como o nome indica) para orcs e até o próprio diabo.

 

Um ano depois temos Castlevania, lançado em 1986 para MSX e posteriormente para NES. O jogo usa da mitologia construída ao redor de Drácula de Bram Stocker e expande para demais elementos do horror ocidental como a entidade corpórea da morte, o monstro de Frankenstein e diversos outros elementos literários ocidentais.

No mesmo ano de 1986 tivemos também Metroid para NES, explorando a ideia do terror cósmico de Alien e Valis para MSX, explorando um universo mais mágico com cultura japonesa. Explorando ainda mais a cultura ocidental temos Kenseiden de 1988 (ano que nasci) lançado para Master System, um jogo onde temos de enfrentar bruxos e espíritos malignos em um Japão Feudal para recuperarmos pergaminhos sagrados e uma espada mágica. Em uma mistura intensa de Shinobi com Castlevania.

 

Beat n Ups
Não só plataformers de aventura aproveitaram a temática do horror. Beat n Ups como Altered Beast de 1988 para Mega Drive, o primeiro jogo que joguei na vida, usa da mitologia grega para montar sua história. Um herói falecido é revivido por Zeus para que resgate Athenas das mãos do maligno Neff. O jogo toma diversas liberdades artísticas mas seus personagens são todos baseados na mithos grego-romana.

 

Finalmente abrindo mão das referências mais clássicas da literatura e abraçando o cinema gore dos anos 70 e 80, temos Splatterhouse, trilogia iniciada também em 1988 (que ano, meus senhores) para fliperamas e seus próximos jogos para Mega Drive, usa dos tropes mais clássicos de filmes gore com horror corporal e o protagonista presta clara homenagem ao protagonista de Sexta Feira 13, Jason. Falando sobre o cinema de terror…

 

Jogos adaptados de filmes de Horror
Diversos jogos ao tentarem adaptar o filme para os jogos, falham em entregar uma experiência do horror, porém com uma temática bem construída, fazem o possível para entregar um jogo que lembre o filme, mas focado no gênero ação, que é o mais comum dos jogos digitais.

 

Dois jogos são estranhamente espelhados. Ambos criados pela Wizard Videogame e lançados para Atari 2600 respectivamente em 1982 e 1983, Texas Chainsaw Massacre e Halloween, filmes que fundamentaram o gênero slasher e baseados no psicopata da vida real, Ed Gein. Ambos tem uma ambientação muito parecida, porém com a diferença clara que o primeiro se joga com o assassino e o segundo, no papel da vítima.

Devido serem os primeiros jogos a retratarem violência gráfica (para a época), sofreram uma grande censura, e eram escondidos das plateleiras de venda, assim como os polêmicos jogos pornô da Atari. Outro clássico do terror, Evil Dead feito em 1894 foi lançado para computadores Commodore 64 é ambientado na cabine onde se passa o filme e o jogador tem de controlar Ash Willians derrotando monstros e protegendo a cabine.

 

A franquia Alien daria um texto só para analisar ela, tamanho é sua biblioteca de adaptações. O primeiro jogo lançado para Atari de 1982 é uma cópia direta de Pac-Man. Já o título de 1984 de mesmo nome para commodore 64 é um adventure com puzzles.

 

Lançado em 1986 com o nome de Aliens: The Computer Game, é um space shooter com elementos narrativos do filme. Temos também Aliens: Alien 2 de 1987 para MSX que se assemelha mais a fórmula clássica dos plataformers, que guiariam os próximos jogos da franquia.

 

Jogos de Tiro FPS
O jogo que definiu o gênero de first person shooter foi Wolfenstein 3D em 1992 para PCs e, apesar de se passar em uma prisão nazista da Segunda Guerra Mundial, não tem um apelo ao horror (mesmo para o período), mas claro que com a popularização do gênero, iriam aparecer títulos. Temos por exemplo Doom de 1983, após algum acidente na teletransportação entre as luas de marte, uma horda de demônios invade o complexo militar e cabe ao jogador aniquilá-los e descobrir o que aconteceu.

 

Usando a mesma engine de Doom, temos Heretic de 1994 que adiciona elementos de fantasia e magia, envolvendo necromancia, rituais e grandes deuses abissais (claramente inspirado em Lovecraft. Com a temática de culto temos também Blood de 1997. Após se juntar e ser traído e assassinado pelu culto á Tchernobog, Caleb volta dos mortos buscando vingança contra o culto e suas criaturas malignas. A ambientação do jogo é bastante perturbadora.

 

Séries como F.E.A.R. e Bioshock futuramente iriam também usar o horror como tema em seus jogos.

 

Jogos de terror e a censura
Como já dito, os primeiros jogos de terror para Atari não eram disponibilizados nas prateleiras, mas escondidos e somente entregues por demanda a maiores de idade, assim como os títulos pornô. Porém os jogos não teriam um sistema de classificação (eu já comentei sobre como funcionam e quais as diferenças dos sistemas brasileiro e americano nesse texto) prático até 1994, e dois jogos com temática do terror são responsáveis por isso.

 

Mortal Kombat de 1992, pela sua violência gráfica ao renderizar sprites de atores reais para o jogo e o uso de fatalities, causou um grande espanto na indústria e levantou uma polêmica sobre a liberdade de criação de jogos. Night Trap, também de 1992, era um jogo de full motion video (com gravação real de atores) onde o jogador era responsável por salvar um grupo de adolescentes de uma organização criminosa, misturando elementos de filmes de suspense adolescente.

 

Em um caso que envolveu senadores americanos e diretores de empresas rivais. Ambos os jogos foram os maiores responsáveis pela criação do sistema ESRB de classificação de jogos, mudando a indústria para sempre. Uma vez com um sistema claro de classificação, o passo adiante para jogos mais assustadores estava pavimentado.

Esse artigo faz parte de uma série de artigos sobre a história do Horror nos jogos digitais, não deixe de checar os outros.

O Horror como gameplay antes do Survival Horror (1980 – 1989)

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