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A estética neo-noir nas séries Marvel/Netflix

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Diferente do clima leve e divertido dos filmes e seriados da Marvel/Disney, a Netflix optou por uma abordagem mais pesada, sombria e violenta que se aproxima bastante de grandes obras do cinema noir e pode se classificar em meio a grandes produções do que é chamado de neo-noir. Conheça mais sobre os elementos clássicos desse gênero que está presente na série do Demolidor e com muito mais força na série da Jessica Jones.

Mistura de estilos

A fusão de outros estilos ao gênero de super heróis não é estranho às produções cinematográficas da Marvel. Homem Formiga mistura pitadas de ficção científica clássica (anos 50 a 80) e filmes de roubo a fórmula de super-heróis. O segundo filme do Capitão América, claro, empresta muito de filmes de thrillers políticos e espionagem dos anos 80 e 90 e até mesmo a DC fez uma experiência (até então, parece bem sucedida) em usar uma temática chick flick (comédias românticas que focam no público feminino adolescente e jovem adulto) em Super Girl e outra não tão bem sucedida em usar Drama Policial na série Arrow.

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Mas tratando-se de êxito, quase não há dúvida da qualidade das séries do Demolidor e da Jessica Jones na Netflix e sua inspiração noir. Diversos elementos clássicos do gênero foram utilizados na construção de narrativa, do visual e fotografia, além das motivações e caracterização dos personagens. Vamos então aos elementos que deram tanto vigor e qualidade a essas séries.

Um protagonista imperfeito

Um advogado cego que a noite caça bandidos que fogem ao sistema de justiça padrão. Matt Murdock passa a série tentando se provar como um dos heróis, mas seus métodos não são exatamente muito admiráveis. Uma visão clássica de anti-herói noir, Demolidor vive a linha da justiça, por conhecer a podridão da cidade e o sistema corrupto que vive, ele tenta trazer justiça a sua maneira para a cidade sem jamais cruzar a última linha entre o bem o mal, o assassinato.

Funcionando como um sensor de mentiras ambulante por causa dos seus poderes. Matt sabe muito bem como diferenciar os mocinhos dos bandidos e pode ver profundamente na natureza humana, o nível de maldade de cada pessoa. Sua atuação na cidade para limpa-la do crime vai desde perseguição a gangues criminosas como investigação de policiais e políticos corruptos.

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Em Jessica Jones temos basicamente um clichê do gênero noir, Jones é uma investigadora particular alcóolatra com um passado sombrio. O grande adicional que permite Jones se destacar no gênero é ter justamente uma protagonista mulher ao invés de um detetive fumante de terno de risca de giz e ar galanteador. Pode parecer pouco, mas a oportunidade de uma narradora feminina no arquétipo de investigador no noir permite explorar um elemento narrativo pouco abordado na maioria dos gêneros, violência sexual.

Jones foi submetida a uma tortura psicológica pelo vilão da série e tenta seguir vivendo com essa cicatriz emocional por anos, tornando-a uma pessoa mais fechada e destrutiva que não viverá em paz enquanto não colocar um fechamento nesse assunto. Isso nos leva também a um relacionamento pouco construtivo com Luke Cage, que desmorona quando é mostrada a ligação de Jones com o assassinato de sua esposa.

Ambientação

Ter as duas séries se passando no mesmo ambiente foi sem dúvida favorável para o desenvolvimento de ambas. Não há dúvidas que a região da cozinha do inferno e arredores em Nova York é uma região perigosa dominada por gangues e facções criminosas. Um tipo de ambiente que é propício para o desenvolvimento de uma força policial corrupta e pessoas que estão no máximo fazendo o possível para viver sem exatamente querer ser uma má pessoa.

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Seja pela visão do advogado criminal de Murdock ou da Investigadora Particular de Jones, temos acesso as piores imagens da alma humana. Crianças raptadas, polícia corrupta, crimes de colarinho branco. A moralidade ambígua não só dos heróis como de todos os personagens da trama, mesmo os mais secundários, nos ajuda a criar essa imagem de terra sem lei e injustiça.

Esteticamente, a escolha de ângulos não convencionais e tomadas de gravação longas, como a já clássica cena de luta no corredor contra a máfia russa de demolidor, além de cenários em vielas escuras e ambientes de alto contraste e com iluminação em low key (do ponto que só é possível enxergar algumas cenas com todas as luzes do ambiente apagadas) torna-se natural e correspondente com a proposta da narrativa e não se torna em algo forçado.

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Ao invés de usar a matriz de cores para tentar empurrar goela abaixo uma seriedade que não corresponde com a história, a caracterização do ambiente nas séries netflix age sutilmente em favor da história e serve para incrementar o visual já correspondente à ambientação sombria da narrativa noir.

Um vilão charmoso e ambíguo

O ponto alto de ambas as séries e um problema que a contraparte do cinema ainda não soube lidar. Fomos apresentados vilões que não representam em si uma força natural de maldade, mas sim pessoas que posam com elegância e se disfarçam naturalmente entre mocinhos, apesar de terem métodos e ambições sádicas e desumanas.

No Rei do Crime temos o clássico vilão de colarinho branco. Wilson Fisk trabalha tanto do lado da lei como fora, lidando com uma empreiteira de sucesso responsável por “revitalizar” o bairro destruído da cozinha de inferno após os acontecimentos de Vingadores. Por trás dos panos, Fisk organiza uma assembleia de criminosos responsável pela distribuição de drogas e prostituição de maneira a diminuir os custos de segurança e compartilhar os lucros.

vincent-donofrio-kingpin-daredevilA imagem de Fisk como um empreendedor que atua dos dois lados da lei entra em contraste direto com o Matt, um advogado independente que busca limpar a cidade de pessoas como Fisk e que também atua dos dois lados da lei.

Killgrave por outro lado, com seu terno impecável e seu jeito sedutor, tem motivações muito mais egoístas e simples e menos ambiciosas. Seu poder é basicamente ser um chantagista e manipulador implacável e irresistível. Ao ter um poder tão grande em mãos, Killgrave não se volta para a política, o poder e dinheiro. Ao invés disso ele tenta levar uma vida hedonista egoísta buscando o bel prazer e consequentemente trazendo sofrimento a todos aqueles que estiverem em seu caminho.

Sua ligação com a protagonista não é outra senão o abuso. Com seus poderes de controle emocional e mental, Killgrave mantém Jessica presa psicologicamente, torturando mentalmente e sexualmente. A pior parte dessa experiência de tortura é que a personagem se mantém acordada em seu subconsciente, mas nada pode fazer para impedir esse tipo de abuso.

Não foram poucos blogs feministas que fizeram alusões concretas de Killgrave a relações abusivas, e a fizeram com razão. Ele se reflete em diversos homens que torturaram psicologicamente suas parceiras e abusam e manipulam psicologicamente as pessoas para que façam seus jogos mentais. O Homem púrpura é um vilão humano, horrivelmente humano, que se esconde sobre a imagem de um bom moço.

 

Várias linhas de narrativa e flashbacks

Outro tema recorrente em narrativas do cinema noir. Durante a série não conhecemos apenas as histórias dos protagonistas. Em Demolidor conhecemos bastante a história de Jack “Batalhador” Murdock e sua tentativa de enfrentar a máfia de apostas no boxe para garantir futuro financeiro para seu filho.dd28.png

Conhecemos Karen Page que é usada como bode expiatório num esquema maior que ela que a faz cruzar seu caminho com o protagonista, quase um clichê noir. Até mesmo temos uma olhada íntima no psicológico de Wilson Fisk e sua família problemática, com seu pai alcóolatra e agressor. Quase sempre por meio de flashbacks perfeitamente executados.

Em Jones além de observarmos diretamente o crescimento de uma adolescente problemática que perde tão jovem seus pais, também conhecemos de perto a vida de Trish Walker, que também se envolve em um relacionamento problemático com Frank Simpson que lentamente se transforma no vilão Bazuca. A vida e infância de Killgrave é exposta não por meio de flashbacks, mas literalmente por fitas de vídeo gravada por seus pais.

Além da trama de Luke Cage e sua falecida esposa, que é inevitavelmente arrastado para os dramas da protagonista também. Todos os eventos são teias de acontecimentos que acabam se chocando num parâmetro maior que é o enredo central.

Uma visão geral do Neo-noir e o futuro das séries

O que é chamado hoje de neo-noir não é exatamente um movimento artístico ou um gênero totalmente separado do resto das produções cinematográficas, mas sim um conjunto de temas e influências que caracterizam uma obra, e não mais se limita ao cinema, como foi adaptado para as mais diversas mídias.

Revitalizado com Chinatown (1974) de Polanski, passando por L.A. Confidential (1997) e espalhando suas temáticas em diversas mídias como o HQ Sin City e jogo L.A. Noire, o neo-noir está muito bem representado nessas séries e ao que tudo indica, ainda será utilizado em Luke Cage, talvez com alguma pitada de blaxploitation, quem sabe? Enquanto a série de Punho de Ferro fica o mistério do que será adaptado… Teremos a temática dos filmes urbanos de kung-fu clássico dos anos 80? Só o tempo nos dirá.

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