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Games e Arte – Parte 3: Desenvolvedoras Indies

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No final do texto sobre ludologia eu citei como que grandes publicadoras mesclaram narrativas e desenvolvimento de personagens de qualidade com uma jogabilidade fluida e precisa para criar grandes monstros de investimento e arrecadamento financeiro. Não é difícil encontrar discussões sobre jogos como Last of Us e Tomb Raider serem novas grandes obras artísticas da modernidade.

Porém há uma crítica a essa lógica industrial e lucrativa da expressão artística. O que os pensadores da Escola de Frankfurt chamam de “Indústria Cultural” é o nome dado a essa ideia de reprodução em massa. Para eles, colocar expressões artísticas na lógica de mercado acaba enfraquecendo a estética e pessoalidade da obra. Ao tentar fazer com que a obra seja um sucesso comercial, acaba perdendo sua singularidade.

Não exatamente concordando com todos os pontos levantados por Adorno e Walter Benjamin,mas também tendo uma visão crítica da grande indústria de games, nascem as pequenas empresas independentes, ou jogos indies. Diferente das grandes indústrias que investem bastante num jogo comercial para alcançar um maior número de clientes, os jogos indies focam em inovação e expressões artísticas individuais e distribuição para um mercado de nicho. Conheçam alguns exemplos.

Indies Horror Games

Dentre os diversos de gêneros de jogos que são abordados pelas desenvolvedoras indies, parece que o gênero de horror é o mais reproduzido. Talvez por ser o gênero mais mutilado pelas grandes indústrias e dificilmente se mantendo a qualidade de uma série, ou seguindo a mesma lógica de filmes “trash” na indústria independente de filmes. Dentre esses jogos a uma enorme variação de jogos criados no RPG Maker (uma engine de fácil utilização criada para desenvolvedores indies) como “Mad Father”, “Hello? Hell…o?” e diversos outros, onde misturam a estética de jogo RPG com uma narrativa fantástica, tentando criar um clima de mistério.

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A Frictional Games é uma empresa indie que ficou famosa por lançar apenas jogos de horror, como a série Penumbra, a série Amnesia e o ultimo jogo lançado, SOMA. A estética dos jogos são bem semelhantes, com temas sérios e sombrios, uma atmosfera misteriosa, um protagonista sem poder de luta e um monstro poderoso que não pode ser encarado. Criando uma atmosfera assustadora e densa em seus jogos.

O jogo Slenderman simplificou a fórmula dá série de jogos amnésia, focalizou mais nos sustos repentinos e também fez um incrível sucesso, sendo criando diversos clones dessa lógica, onde os sustos são mais importantes que a história. Outro jogo a extrapolar o uso de jump scares (sustos dado no personagem propositalmente) e fazer um enorme sucesso com uma base simples foi a série Five Nights at Freddy’s.

Dōjin soft

Dojin soft é o equivalente a indústria indie de games no Japão. Basicamente segue a ideia de desenvolvedores que se juntam para programar games por hobbies e não buscam lucro. Em qualquer outra mídia, o oriente e em especial o Japão, tem uma visão única sobre o horror que se destaca em sua produção frente as demais. Um excelente exemplo é a franquia Corpse Party da Team GrisGris, em especial seu primeiro jogo que teve remakes para PSP e Windows.

Com um enredo extenso que envolve religiosidade oriental, os jovens são presos em uma dimensão paralela com uma série de misteriosos espíritos. Cenas de violência gráfica, suicídios e tortura psicológica também estão presentes nos games que, mesmo tendo um gráfico típico de anime, nos trás uma sensação única ao jogar.

 

Tratando se de desenvolvimento independente de jogos de horror, há uma designer em especial que faz sozinha seus games e que vale ser mencionada. Conhecida apenas como Uri, ela desenvolveu uma série de jogos de horror no RPG Maker como Mermaid Swamp e The Boogie Man. Todos os jogos envolvem um cuidado estético caprichoso e um enredo bem desenvolvido. Confira alguns desses jogos nessa playlist de gameplay do youtuber “ManlyBadassHero”.

Claro que os jogos desenvolvidos em Dojin Softs não são exclusivamente de horror, de fato muitas delas se especializam em “visual novels” como a 07th Expansion e Type-Moon. Muitos fangames, jogos que usam personagens já conhecidos de algum outro lugar, são desenvolvidos também, como o Ragnarok Battle Offline desenvolvido pela French Bread que surpreendeu até os criadores originais do jogo Ragnarok Online. Assim como homebrews (clude de desenvolvedores de jogos amadores no ocidente), muitas dojin soft costumam lançar jogos no extinto Dreamcast da Sega, pela facilidade que é programar um jogo para ele, mantendo assim o console vivo.

Indie Games e Narratologia

Existem produtoras independentes que focam a criação dos seus jogos em entregar uma rica narrativa, ou apenas contar uma história com um grande nível de interação. Um grande exemplo disso é Stanley Parable, criação de Davey Wreden. Stanley Parable é uma narrativa interativa sobre Stanley, um funcionário típico de escritório que um dia, se depara com todo o prédio que trabalha vazio.

O jogador tem de então percorrer os prédios e fazer seu caminho para não só entender o que aconteceu, mas entender um pouco sobre si, próprio. O jogo é uma daquelas experiências que se moldam conforme a interatividade do jogador, um jogador mais sério encontrará uma história mais dramática, enquanto um jogador mais brincalhão encontrará um enredo mais divertido. Qualquer definição além disso estragaria a experiência do jogo.

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Outro jogo famoso por ter uma narrativa comovente é “To The Moon”, um adventure criado no RPG maker que conta a história de um senhor viúvo a beira da morte, querendo realizar seu ultimo desejo em vida, visitar a Lua. Algumas publicadoras gigantes tendem a financiar projetos de estúdios independentes e assim reunir o melhor dos dois mundos. Como exemplo temos o jogo Life is Strange desenvolvido pela Dontnod Entertainment mas publicado pela Square Enix.

Indie games e Ludologia.

Claro que, numa indústria onde a inovação é celebrada, os jogos não focariam apenas em boas narrativas, mas também um gameplay inovador, interativo e que beira a perfeição. Jogos como Super Meat Boy, FEZ  e Braid são jogos de plataforma com recursos de gameplay inovadores, como por exemplo a pele esponjosa de Meat Boy, que é usada para “grudar” nas plataformas e assim permitir ao jogador alcançar outros lugares.

FEZ brinca com a noção de perspectiva entre o 2D e 3D e trás puzzles inovadores para o estilo já Braid tem um recurso de volta no tempo que aumenta em muito as possibilidades do jogador com o jogo. O documentário “Indie Game – The Movie” mostra como foi o desenvolvimento dos jogos “FEZ” e “Super Meat Boy”, além de acompanhar a rotina dos desenvolvedores.

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Um estúdio brasileiro que vem se destacando mundialmente na indústria é Joymasher, que vem se destacando em criar jogos modernos com o melhor da estética 8-bits e pixel art. O estúdio conta com o já famoso Oniken, que tem inspiração em Ninja Gaiden com temática cyberpunk e o atual lançamento Odallus, que tem influencias da série Castlevânia e Metroid. Na página oficial deles (que por algum motivo, só tem em inglês) existem alguns jogos freeware para jogar. Você pode acessar clicando aqui: http://joymasher.com/

Esses foram exemplos de bons jogos desenvolvidos por indústrias independentes e que tem um espectro enorme de aspiração estética, sendo cada um uma obra de arte em sua proposta. Mas ainda sim vemos que os jogos digitais até então não possuem um elo forte de ligação com artes mais expressivas e interpretativas. Bem, não até agora… No próximo texto falarei dos Art Games.

Outros textos da série

Parte 1: Narratologia
Parte 2: Ludologia
Parte 3: Desenvolvedoras Indies
Parte 4: Art Games

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